‘Tabu’ de Miguel Gomes

Tabu é um dos exemplos daquilo que de bom se faz por cá – aqui em Portugal. Se nem todos ficámos convencidos com a sua última longa-metragem – Aquele Querido Mês de Agosto – creio que agora Miguel Gomes conseguiu reunir um consenso bastante generalizado quanto à qualidade do seu cinema. Tabu, no recente Festival de Cinema de Berlim, foi amplamente prestigiado com a conquista de dois prémios.

Não só o título mas também a divisão dos capítulos e, aliás, todo o enredo, fazem-nos recordar o filme homónimo de Murnau. Tal como o grande clássico de 1931, este Tabu tem um enorme cuidado estético no modo de nos apresentar o drama, tornando-se de certa forma um filme poético. Miguel Gomes transporta a narrativa de Murnau para as colónias de Portugal anterior ao 25 de Abril. É no cenário paradisíaco do continente africano que os dois protagonistas vivem uma intensa paixão proibida pelos padrões morais da sociedade em que se inserem. Os amantes escondem a loucura o mais que podem. Mas a força daquele mundo encarrega-se de dissolver aquela relação sem futuro. Neles fica apenas a nostalgia do passado. A paixão absorvente e estimulante extingue-se, deixando nos dois um horizonte melancólico em que se vislumbra aquele amor perdido como uma miragem, algures na memória. Com o passar do tempo, a solidão e a velhice vão definindo a vida dos dois. E aí – no paraíso perdido – o seu amor é-nos narrado, sempre a partir dos olhos de quem o viveu.

publicado por Andreas Lind às 16:02 | partilhar