Uma criancice "do" Álvaro

Sobre a eliminação salvífica dos quatro feriados, embora não seja já eliminação, mas apenas suspensão dos mesmos, ainda que já não seja dos quatro, mas somente de dois e o mais que se verá logo à noite, ou amanhã, ou prà semana, quando já será apenas um, ou pelo contrário, cinco e não quatro nem dois, e talvez, quem sabe, de novo eliminados ou, por amor de Deus, nem eliminados nem suspensos, mas antes interrompidos - até 2017, ou, quem sabe, 2018, 2019 ou 2020, ou, afinal, 2015, sobre esta linha claramente orientadora disse o ministro da Economia, emigrante não eliminado, mas apenas suspenso, vá-se lá saber até quando:

 

"A ideia é trabalharmos mais [sic] e melhor [sic] para produzirmos e termos um país cada vez mais… a produzir riqueza [sic] e um país cada vez mais… a criar emprego [sic] e certamente um país mais competitivo."

 

Sejamos justos. Lévy-Bruhl adoraria estudar este ministro. É que se nota nele aquele maravilhamento pela linguagem que o homem primitivo experimenta. Aparece-nos vestido, com a pele nua de pinturas significantes, a pera sempre aparada, desprovido de penas coloridas e nunca o vemos, mesmo na Concertação Social, executar uma qualquer dança ritual empunhando clavas ameaçadoras e bastões farfalhudos, tudo isso é verdade - mas vejam-lhe aquele olhar quase infantil de criança que des-cobre, que maneja alegremente as grandes coisas pela primeira vez. Contudo, é no seu discurso que somos devolvidos ao espectáculo da humanidade que se surpreende, gostosa e repentinamente, como capaz de linguagem. Como se vê na citação acima, o ministro acredita, sente, diz as palavras como entidades mágicas. Elas, por si só, sem mais, criam efectivamente a realidade quando são pronunciadas. Ditas pela sua boca, aquelas uoces desencadeiam forças terríveis, convocam as próprias coisas. As aparentes hesitação, contradição e atabalhoamento (senão mesmo incompetência política, dirão os maldosos), são, na verdade, a consciência do peso das palavras, a dificuldade vivida do confronto com as próprias palavras que se dizem. Aquele homem acredita no que diz e, magicamente, crê que basta dizer as coisas para que elas sejam. Haja delírio ou pura ignorância. Nada mais importa. Por exemplo, a própria realidade não tem importância nenhuma, como se sabe.

publicado por Carlos Botelho às 15:56 | comentar | partilhar