Até as piores crises têm alguns resultados positivos

Como sucedeu noutras áreas, onde tantos anos de engorda e despesismo do estado tiveram como consequência a extensão dos tentáculos do estado até sectores pouco recomendáveis (para o estado) como a comunicação social, os seguros e um largo etc. em prejuízo da execução eficiente e eficaz das funções fulcrais de um estado (o estado calamitoso dos tribunais é apenas um dos sintomas desta visão desviante que foi sendo sedimentada ao longo dos anos do que deve ser um estado), a política cultural também preferiu demitir-se das suas funções essenciais - a preservação do património - para se concentrar na construção de clientelas de artistas que, do alto da sua casta de artistas (mesmo quando apenas se lhes pode aplicar o termo em sentido muito lato) e do seu profundo desprezo pelos mortais comuns (vulgo: contribuintes), decidiram ter um direito inalienável ao dinheiro dos contribuintes e consideram não ser possível avaliação dos resultados do seu trabalho se não pelos seus pares igualmente dependentes do dinheiro dos contribuintes. Estas clientelas ficam sempre bem nas campanhas eleitorais; quem considera não ter de sustentar clientelas cujo trabalho não aprecia (se apreciasse, escolhia gastar parte do seu dinheiro nos resultados da criatividade dos ditos artistas) é apelidado de troglodita ou amante de telenovelas mexicanas.

 

Um dos poucos lados bons desta crise é mesmo o termos alguém que, finalmente, diz a esta clientela que não tem nenhum direito inalienável ao meu dinheiro. Isto, claro, nem entrando na questão mais importante: na actual conjuntura, quando tanta gente luta diariamente por uma sobrevivência digna (quando não apenas sobrevivência), há alguma legitimidade em desviar recursos estatais para clientelas partidárias que produzem bens que não são propriamente de primeira necessidade? (Sim, fica muito bem dizer que sim, que bens culturais são de primeira necessidade mas, alas, não são; eu própria, se sobrevivo muito bem sem cinema português, considero ler tão essencial como respirar,  no entanto, se tivesse de escolher entre dar de lanchar aos meus filhos ou comprar livros, estes lá seriam sacrificados; em suma: dizer que os bens culturais são essenciais mais não é do que um exercício de um snob).

publicado por Maria João Marques às 11:00 | comentar | partilhar