Bem-aventurados os simples

Quem viu a audiência parlamentar do Ministro-Adjunto a propósito do caso das secretas, anteontem, deve ter-se lembrado da guerra do Solnado, uma comparação já aqui feita por um comentador. É que as respostas de Relvas são do foro do mais puro nonsense. Ao que parece, o responsável pela coordenação política do actual Governo não acha estranho receber sms de um quase desconhecido com propostas de reorganização dos serviços secretos e nomes para os dirigir. Nem informação produzida pelos mesmos serviços, mas vinda de alguém que já não trabalhava lá, como era do conhecimento público.

Ou Relvas anda muito distraído - ou a história está mal contada. Estranho, isso sim, é que o então número 2 do principal partido da oposição, com a perspectiva de vir a ser o braço direito do Primeiro-Ministro em breve, não se tenha questionado sobre o que levaria alguém a enviar-lhe tal material. E que nada tenha feito para impedir o algo suspeito exercício. Que não tenha interagido, para usar o seu eufemismo, perguntando a Jorge Silva Carvalho "o cavalheiro não leve a mal, mas a que propósito me envia notícias da visita de Bush ao México e o seu nome para um cargo de relevo no Leviathan lusitano?". Ou, dependendo da confiança, "Ó pá, mas que merda é esta?"

Não. Népias. Nada. Relvas, transparente e puro como um querubim albino, limitou-se a apagar as mensagens. Não sabemos sequer se as terá lido. O que, em certo sentido, se compreende. Também eu recebo tantas mensagens a anunciar o fim do mundo, a cura do cancro e a reforma dos serviços secretos portugueses que já nem ligo. Sobretudo se vêm de ex-super-espiões que usam os recursos do Estado, embora já estejam a trabalhar em empresas privadas, para manter o contacto com os amigos. Coisa mais linda. Carvalho, uma alma generosa, quase tão transparente e pura como Relvas, a partilhar com meio mundo amenidades e projectos de salvação da pátria por lídimo desinteresse. Sem uma resposta, um agradecimento, uma interacção.

Bem-aventurados os simples. 

publicado por Pedro Picoito às 17:26 | comentar | partilhar