Triste natureza humana, que não deixa de ser hilariante

Então não é que agora, perante a acusação da editora de política do Público a Miguel Relvas, há quem venha defender que Miguel Relvas não é rapaz para ter estes comportamentos? Ou, melhor ainda, que nada foi 'provado'? Ora bem, quanto à primeira defesa, e aceitando que Miguel Relvas foi uma pessoa correcta até estes dias, não é que seria surpreendente um ministro sofrer um processo inédito que, paradoxalmente, tem como nome o  cliché 'subiu-lhe o poder à cabeça'? E esse mesmo ministro ser assaltado de um sentimento (tendo em conta o país, bastante justificado) de impunidade? E, perante muitas notícias desfavoráveis, ter uma reacção a quente que não se pode aceitar? Se quem esboça tal defesa de Miguel Relvas não concebe estas possibilidades, ou tem défice de imaginação (e, de caminho, de boa literatura) ou está a reinar. Quanto ao que está 'provado' ou não, não vamos voltar àquele argumento rasteiro da era socrática que propunha que apenas o susceptível de ser provado em tribunal pode ser usado no debate político, pois não?

 

Quanto à questão de fundo: se ainda passa que a quente um ministro ameace com um black-out do governo a um jornal, retratando-se depois, que um ministro ameace divulgar divulgar informação pessoal de uma jornalista como represália pela investigação da jornalista já está noutro nível e é essencial que se investigue não só se a ameaça foi feita como também se o governo ou alguém no governo tem vindo a armazenar informação pessoal sobre jornalistas (e se só de jornalistas) para divulgar como castigo a quem se porta mal. O mínimo que se pedia a Miguel Relvas e ao PSD era toda a disponibilidade para esclarecer a questão onde deve ser esclarecida: na AR, visto que é também um assunto político, e a democracia faz-se com o escrutínio político e não pela aceitação acrítica da confiança que uns tantos têm nos comportamentos de outros. E o PSD começou mal.

 

Nota: para quem relevou todos os (muitos e estrepitosos) ataques de Sócrates e Santos Silva aos media nos anos negros do socratismo e se indigna agora, aqui vai a definição de um conceito útil: o de vergonha na cara.

publicado por Maria João Marques às 11:34 | comentar | partilhar