Fim do euro (36) Fuga de depósitos

Desde o início de 2010 que tem havido um lento desvio de depósitos bancários da Grécia para o exterior que, até Março de 2012, foi de 30% do total. Após o impasse resultante das últimas eleições houve um acelerar deste movimento, que terá sido estancado, mas que poderá agravar-se a qualquer momento. Em particular, se a repetição das eleições a 17 de Junho voltar a produzir um impasse ou um governo que não esteja disposto a cumprir os acordos com a troika.

 

O líder do Syriza (o Bloco de Esquerda grego), partido que lidera as sondagens, acalenta a doce ilusão de chantagear os parceiros europeus, insistindo em recusar respeitar os compromissos assumidos pela Grécia. O Syriza está carregado de razão ao pensar que a saída da Grécia provocaria danos devastadores na zona do euro. Mas está iludidíssimo (e não está sozinho) ao imaginar que, por isso, os líderes europeus tudo farão para impedir a saída deste país.

 

Por mais irracional que seja esta atitude, a Alemanha jamais consentirá que a Grécia deixe de cumprir o programa de austeridade aprovado. A agravar esta irracionalidade está a ilusão, desta feita por parte da Alemanha e de outros estados europeus, de que é possível criar um muro de protecção do contágio a outros países e – o cúmulo do delírio – de que este muro já foi construído e está pronto a funcionar como uma barreira eficaz.

Porque é que há esta fuga de depósitos da Grécia? Os depositantes gregos enfrentam dois riscos. Em primeiro lugar, o risco de que os bancos gregos vão à falência. Em segundo lugar, o risco de que a Grécia saia do euro. Há variadas estimativas sobre a possível desvalorização do dracma, mas fala-se de valores em torno de 50%. Isto significa que os depósitos que permaneçam na Grécia se desvalorizariam em 50%, para além de perdas adicionais devido à provável falência dos bancos gregos, na sequência da saída do euro.

 

Julgo que, neste momento, poucos gregos acreditarão que o Estado grego possa garantir o valor dos depósitos, mesmo em dracmas. O Estado helénico já está falido e vai ficar ainda mais quando sair do euro. Imaginar que, nessas circunstâncias, o Estado irá assumir ainda mais perdas para garantir os depósitos, para além de um montante relativamente baixo, é do domínio do delírio, até porque seria politicamente um suicídio, por constituir uma “ajuda aos ricos”.

 

Porque é que esta fuga de depósitos pode acelerar a saída da Grécia do euro? Para substituir estes depósitos em fuga, o Banco da Grécia tem emprestado dinheiro aos bancos gregos, agindo como um “balcão” do BCE. Isto significa que estes empréstimos são, em última análise, uma responsabilidade dos accionistas do BCE, com o Bundesbank à cabeça. Dado que o montante de depósitos nos bancos gregos é superior à ajuda já concedida, é quase como se estivéssemos a duplicar a ajuda a este país. Por outro lado, se a Grécia sair do euro ficará praticamente impossibilitada de pagar qualquer destes empréstimos. Assim sendo, é natural que, em algum momento, este processo seja travado, reconhecendo-se que a única resolução possível é a retirada da Grécia.

 

Porque é que isso contagiará outros países? A saída da Grécia do euro irá abrir uma caixa de Pandora impossível de fechar. O que se passar na Grécia será, previsivelmente, uma antevisão da câmara de horrores pela qual outros países passarão. Por isso o contágio é inevitável. Aliás, o contágio nem está restrito aos mercados obrigacionistas, afectando também os mercados accionistas (o índice bolsista português está em mínimos de 1996), cambiais (o euro já começou a depreciar-se face às principais moedas) e de mercadorias (o preço do petróleo também se tem ressentido da perspectiva de recessão mundial que deverá acompanhar o colapso da zona do euro). Para além disso, o contágio não se estende apenas aos países europeus, mas praticamente a todo o mundo: é cada vez mais frequente que uma má notícia sobre a crise do euro provoque a queda das bolsas asiáticas.

 

[Publicado no jornal “i”]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 17:28 | comentar | partilhar