Incompatibilidades jornalísticas

Se afinal Miguel Relvas ameaçou revelar sobre a jornalista do Público que investigava as suas relações com o denominado 'caso das secretas' algo que não traz qualquer embaraço e até é do conhecimento geral (além do blackout, e da queixa à ERC e aos tribunais), confesso que não vejo motivo para tanto alarido. Diferente seria se Miguel Relvas pretendesse revelar pecadilhos sexuais da jornalista ou dos que lhe são próximos, a falta de pagamento da segurança social da empregada doméstica, as más notas de um filho ou algo do género e se tivesse obtido essas informações fazendo uso do alto cargo que ocupa. Afinal, os jornalistas não estão acima do escrutínio (desde logo o dos consumidores que escolhem comprar ou não as publicações onde escrevem).

 

Dito isto, também não vejo que incompatibilidade teria a jornalista, por ter uma relação sentimental com alguém do PS, em escrever sobre o governo PSD-CDS, ou que embaraço tal lhe traria ou em que medida isso desvaloriza as suas investigações. Os políticos devem ser submetidos a um escrutínio forte e que esse seja feito por espírito de missão ou por azedumes pessoais não me interessa nada desde que o poder seja de facto escrutinado. Incompatível e inaceitável seria que a jornalista escrevesse sobre o seu namorado (ou lá o que é). Tal como incompatível e inaceitável foi uma jornalista ter uma relação com alguém que pertenceu a um governo e ter escrito notícias sobre esse governo sob a capa de imparcialidade - tanto inaceitável para a jornalista como para o jornal que publicou as notícias.

publicado por Maria João Marques às 16:00 | partilhar