Revisitando a História

A filha de Isabel do Carmo publicou um livro intitulado Mulheres de armas. A edição reúne o testemunho de catorze mulheres que participaram ativamente nas manobras das Brigadas Revolucionárias contra a ditadura no início da década de setenta do século passado: colocar bombas, rebentar petardos com panfletos de propaganda política, assaltar bancos… Trata-se de um movimento inserido na história da luta anti-fascista em Portugal. É verdade. Mas espero que esta publicação não se traduza numa tentativa revisionista da história; num reducionismo da realidade do movimento. As Brigadas Revolucionárias, o Partido Revolucionário do Proletariado, não se inserem apenas na história anti-fascista, mas também numa cultura de certa forma anti-democrática (entendendo-se Democracia pelo sistema parlamentar implementado no pós-25 de Abril).

 

Com efeito, parece-me redutor apresentar as Brigadas Revolucionárias como um movimento de luta contra o fascismo no qual as mulheres já assumiam algum protagonismo político. Convém não esquecer que o PRP-BR deu origem às FP-25 já depois da revolução dos cravos. A sua atividade contribuiu de certa forma para que Abril não tenha sido só cravos. Além disso, tirando o romântico fervor e a adrenalina indelével às ‘armas’, este movimento constitui um grupo de pessoas a quem a história passou ao lado. Para eles, ao Portugal pós-Abril, só duas alternativas se colocavam: uma ditadura de direita; ou uma de extrema-esquerda, a qual queriam construir, provavelmente sem saberem definir e estruturar muito bem em que moldes. A história encarregou-se de mostrar a falsidade das suas profecias. De resto, estas crónicas, algumas das quais bem engraçadas e divertidas, contadas na primeira pessoa daquelas que deram vida a este movimento – o qual teve, aliás, pouca representatividade por todo o país – é o que apenas resta desta ingenuidade política.

publicado por Andreas Lind às 15:11 | partilhar