A natureza das coisas (uma expressão démodé)

Segundo o Alexandre [Homem Cristo], há um mito a pairar no ar que se sobrepõe à realidade. E como reza o mito? A educação está hoje pior do que antigamente. Este mito estará relacionado com um outro, desta feita não explicitado como tal pelo Alexandre, segundo o qual o ensino do sistema actual é menos exigente do que o de outrora. Ora, não é de todo impossível qualificar-se um sistema menos exigente mas mais democrático como sendo melhor do que um sistema mais exigente e menos democrático. É, segundo penso, o que Alexandre faz: hoje há mais alunos escolarizados do que outrora, logo o sistema de hoje é melhor do que o de outrora. Faz sentido e compreende-se o argumento. Contudo, o argumento não é necessariamente verdadeiro. Mais importante ainda, o argumento nada nos diz sobre a exigência da educação. E o que sabemos sobre a exigência da educação de hoje face à exigência da educação de outrora? Sabemos pouco, de facto. Mas sabemos que os exames do passado, para um mesmo ano escolar, eram mais exigentes do que os exames de hoje (reportagens de jornais comprovam isso mesmo). E sabemos que hoje são cada vez mais e mais os alunos a entrar na universidade sem saber escrever de forma recta e inteligível, o que outrora não acontecia (são os professores universitários, com anos de experiência, que o dizem). Em suma, podemos concluir que não é impossível que o sistema de ensino de hoje seja melhor do que o sistema de ensino de outrora, bastando para isso que a medida da qualidade seja o número de alunos escolarizados. Agora, se a medida da qualidade for a exigência, então a conversa muda radicalmente de figura. É natureza das coisas que a democratização do ensino implique menor exigência? Eis uma boa pergunta que a realidade parece comprovar. O segredo do sucesso estará em conseguir-se equilibrar da melhor forma possível os dois lados da questão. E, para este efeito, para se equilibrar a democracia com a exigência, não é mais importante ouvir e ler o que o Alexandre tem para dizer do que ouvir e ler os educadores démodés (na expressão do Alexandre). Quanto à autonomia escolar, de que o Alexandre também fala, eu não poderia estar mais de acordo – até porque a autonomia poderá ser a única forma que resta às escolas de imprimir exigência no ensino, indo assim ao encontro das expectativas de tantos alunos e tantas famílias que hoje se sentem defraudadas por um sistema aparentemente mais preocupados com o número de alunos escolarizados do que com o conhecimento adquirido ao longo do percurso escolar.

publicado por Nuno Lobo às 13:08 | comentar | partilhar