Inovação energética e industrialização

 

 

 

Temos ouvido falar muito de inovação a propósito das energias renováveis em função de avanços tecnológicos e de novas aplicações comerciais. Mas parece agora consensual que as grandes inovações tecnológicas na área da energia, na primeira década do novo século, são na (menos sexy) família das energias fósseis. Refiro-me ao gás não-convencional, e ao gás de xisto (shale gas) em particular.

Duas inovações tecnológicas tornaram possível esta revolução que não foi previamente anunciada, e que permitiu a exploração de gás de xisto em volumes considerados comerciais: a perfuração horizontal (horizontal drilling); e a fracturação hidráulica (fraccing). Não querendo aborrecer o leitor com questões técnicas relativas à exploração deste gás, deixo aqui um vídeo didáctico (descontem a propaganda).

Aquilo que não se adivinhava no início do século XXI era o impacto desta tecnologia no mercado de gás nos EUA. Uma revolução tipicamente americana. O gás de xisto que era menos de 1% da produção de gás norte-americana em 2000 é actualmente mais de 30% e pode chegar muito em breve aos 50%. Nada fazia prever esta revolução, tudo indicava que o preço do gás seguiria em crescendo e que os EUA seriam um grande importador de gás natural liquefeito (GNL). Diversos projectos foram então desenvolvidos tendo por premissa económica a satisfação do mercado norte-americano, como foi o caso dos terminais de regaseificação nos EUA, os últimos trens de liquefacção no Qatar, e do ainda por inaugurar - Angola LNG. Mas a revolução do gás de xisto modificou tudo: o Médio Oriente está agora a fornecer a Europa e a Ásia; e Angola prepara-se para fazer o mesmo.

O impacto do gás de xisto no mercado dos EUA tem sido extraordinário. O mercado está inundado de gás e isto tem um consequente reflexo nos preços: o preço do gás já atingiu a barreira dos 2 $/MMBtu nos EUA (Henry Hub); enquanto na Europa está a cotar perto dos 9 $/MMBtu (NBP); e no Japão a atingir os 18 $/MMBtu. Observem bem: o gás no Japão custa agora 9 vezes mais do que nos EUA, isto é uma enorme vantagem competitiva da economia norte-americana.

Infelizmente os benefícios desta saturação de gás do mercado norte-americano, e o consequente preço reduzido do gás, não foram extensíveis aos demais mercados porque não é actualmente possível aos produtores americanos exportarem o gás em forma de GNL. Coisa que indianos, japoneses e até espanhóis andam à procura, assinando contratos promessa para fornecimento futuro. Países importadores e produtores americanos de gás todos pressionam agora a administração Obama para que permita a exportação do gás. Mas alguns economistas, industriais americanos (das industrias de energia intensiva) e alguns políticos não estão dispostos a permitir que isso aconteça – prevendo que o gás suba no momento que estiver disponível a exportação.

Um forte argumento para não deixar que a exportação aconteça, é o da reindustrialização americana com a “gaseificação da economia” (conversão dos transportes e da produção de electricidade), mas também o repatriamento de industrias e empregos, que se deslocalizaram para outros países na procura de energia mais barata. Não faz a reindustrialização e o repatriamento de emprego quem quer, mas quem tem argumentos económicos para isso. E os americanos têm agora um: energia barata. Tem-se observado, por exemplo, o regresso de algumas indústrias americanas, que deixaram a América do Sul e o Oriente e regressaram aos EUA.

De acordo com algumas estimativas optimistas o baixo preço do gás é sustentável, e pode conduzir, nos próximos anos, a um adicional no crescimento do PIB americano equivalente a quase 2% ao ano. Pode Obama arriscar uma decisão que contrarie isto – e permitir a exportação de gás -ficando conhecido como o destruidor do mais promissor agente de crescimento económico e do renascimento industrial americano? Provavelmente não, vai tentar uma situação de compromisso; e só vai permitir a exportação de uma pequena quantidade de gás americano.

 

Também a Europa está preparada para propor a inovação energética como base do seu modelo de crescimento e emprego. O modelo americano tem uma grande vantagem perceptível: o preço da energia - é claro, e qualquer industrial vai entender no momento de tomar uma decisão. E quanto à Europa, quais são afinal os argumentos económicos para suportar o emprego (criado ou devolvido) e o investimento com base na nova revolução energética? Duvido que no modelo europeu o preço da energia venha a ser o argumento em jogo, mas seria bom que outros argumentos surgissem, e mais importante: que sejam entendidos e apreciados por aqueles que fazem os investimentos e criam ou transferem os empregos.

 

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publicado por Victor Tavares Morais às 09:10 | partilhar