Obrigada pelos conselhos, mas não precisamos

Eu espero não dar uma surpresa demasiado forte a João Miranda, mas as empresas (e os particulares que estabelecem mínimos de ordenados a aceitar) sabem tomar as suas decisões sem recorrer a António Borges ou aos que o aplaudiram. De facto, tem sido comum nas empresas privadas nestes últimos anos a contenção salarial, quando não mesmo o congelamento dos salários nominais (o que implica a descida dos salários reais) ou a diminuição de prémios de produtividade e outras regalias. Por estes dias, qualquer empresa oferece a um novo colaborador um ordenado mais pequeno do que o fazia há dois anos (ou, em alternativa, oferece o mesmo ordenado mas exige maiores qualificações). Se uma empresa não consegue pagar os ordenados dos que já lá trabalham, ou consegue despedir os menos produtivos ou não consegue (o que é frequente por cá graças à absurda legislação laboral) e acaba por fechar e despedir toda a gente. Tudo isto pressiona os ordenados para baixo sem que António Borges ou João Miranda necessitem de intervir. Por outro lado, quem procura trabalho actualmente sabe bem que não pode esperar ganhar o que esperaria há uns anos (e aceita ordenados menores), tanto pela contenção de custos das empresas como pela abundante oferta de trabalho expressa nos nossos números de desemprego.

 

Em suma: o mercado de trabalho, mesmo no contexto daquela coisa perniciosa que dá pelo nome de código do trabalho, tem acertado o valor dos ordenados quando e quanto é necessário. Tudo, novamente, sem a ajuda de António Borges e seus apoiantes - obrigada, de qualquer forma, pela preocupação.

 

Isto dito, é óbvio que as atenções dos governantes se devem centrar naquilo que é a verdadeira causa da nossa atrofia económica, em vez de procurarem desviar atenções para outros supostos culpados. Não se trata de serem alternativas entre si: trata-se de um constituir um problema para a economia que os governantes podem resolver, enquanto o outro não.

 

Uma nota só para terminar, que esta conversa dos transaccionáveis versus não-transaccionáveis só é possível para quem vê a economia em teoria e acha que algum agente económico decide sobre alguma ideia de negócio pensando 'isto vai-se encaixar no sector transaccionável ou no não-transaccionável?'. Ou de quem pensa numa economia planificada e acha que tantos recursos devem ser alocados num sector e tantos noutro. Há boas possibilidades de negócios em ambos os sectores e esta mania de perseguição dos não-transaccionáveis é herdeira directa (só mudam os protagonistas) da anterior mania das obras públicas como motor de crescimento. As pessoas que arrisquem, num sector ou noutro, que o mercado há-de premiar as boas ideias, tanto o que se transaccionar cá como o que se transaccionar lá fora. Prefiro um país com excesso de empreendedorismo, mesmo que parte deste falhe, do que um país - como nos estamos a tornar - onde quem não pensa em exportar é um pária económico.

publicado por Maria João Marques às 14:37 | partilhar