Um sentimento de injustiça

 

Espanha foi resgatada. Pode-se tentar usar outro nome, mas é de um resgate que se trata. As condições da ajuda internacional, que se vão conhecendo, suscitam reacções diferentes. Alívio, por um lado, mas surpresa, por outro, em especial pelas melhores condições do empréstimo para resgatar os bancos espanhóis.

É um facto que a situação em Espanha – sobretudo a dívida pública e externa – não é tão grave como em outros países resgatados. Mas isso não evita um travo amargo na boca. Um travo com sabor a injustiça. Pelos vistos a arrogância e o juízo de censura moral não atravessou os Pirenéus. Espanha será sujeita a um "plano de vigilância das suas variáveis macroeconómicas", garante o comunicado europeu, mas essas coisas de troikas e avaliações periódicas são só para os países pequenos. Nem as taxas de juro aplicáveis serão as mesmas. O artigo 4.º do Tratado de Lisboa, que garante um tratamento igual entre todos os Estados-Membros, tornou-se letra morta nos últimos dias. Aparentemente, todos os países são iguais mas há países mais iguais que outros. Já nos esquecíamos da história: nem todos os PIGS são iguais.

O sentimento de injustiça é dos mais fortes que conhecemos. Quando se espalha torna-se corrosivo para o equilíbrio social. Nada se consegue construir em cima dele. Em tempos de crise, quando são exigidos pesados sacrifícios a países e pessoas concretas, é essencial demonstrar que todos são tratados por igual, sejam eles portugueses ou espanhóis, famílias ou bancos, países pequenos ou grandes. Não perceber isto revela uma miopia inquietante. (...)

 

[Versão integral no Diário Económico]

publicado por Paulo Marcelo às 09:20 | comentar | partilhar