Não sejamos démodés - e reconheçamos ter havido alguma evolução (3)

Disse-me a dadivosa viúva de Vilalva que os livros estavam na adega havia mais de trinta anos, desde que seu cunhado, que estudava para padre, morrera ético; que o seu homem — Deus lhe fale na alma — mandara calear o quarto onde o estudante acabara, e atirou para as lojas tudo o que era do defunto — trastes, roupa e livralhada. Contou-me isto secamente do extinto cunhado, ao mesmo tempo que roçava com a mão fagueira o ventre grávido de uma gata maltesa que lhe resbunava no regaço, passando-lhe pela cara a cauda em atritos de uma flacidez de arminho. E eu que dedico aos bichos um afecto nostálgico, uma sensibilidade retroactiva, um atavismo que me retrocede aos meus saudosos tempos de gorilha, olhava para a gata que me piscava um olho com uma meiguice antiga — a das meninas da minha mocidade que piscavam. Onde isto vai!

 

Camilo Castelo Branco, A Brasileira de Prazins, 1882

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publicado por Carlos Botelho às 02:06 | partilhar