Fim do euro (40) Acumular capital político

Acabámos de revisitar o mesmo guião de sempre com o resgate à banca espanhola: após ser mil vezes negado, lá acabou por ser pedido. A ilação principal que retiro deste episódio é o reforço da minha convicção de que o euro está a viver os seus últimos meses de vida. Todos os desastres que era “impossível” acontecerem irão concretizar-se, um a um, até à desagregação final desta moeda.

 

A falta de clareza das condições deste resgate foram aumentadas pelas declarações do primeiro-ministro espanhol que, tal como Sócrates antes dele, fez um discurso, para consumo interno, de que a Espanha receberia fundos em termos muito favoráveis. A Irlanda e a Grécia já se posicionaram para uma revisão das condições da sua ajuda, para aproveitarem algum eventual alívio.

 

Portugal poderá ver-se tentado a ensaiar um movimento semelhante, mas não me parece aconselhável tomarmos a iniciativa. Se acabarmos por vir a beneficiar de uma alteração na política europeia face à banca, tanto melhor, mas não parece prudente gastar capital político numa questão que, em Portugal, está muito limitada.

 

Há também aí algumas movimentações no sentido de Portugal pedir mais tempo para fazer a consolidação orçamental. Mas o ano de 2012 está tão extraordinariamente envolto em incertezas, que me parecem muito prematuras estas sugestões.

 

A Grécia é bem capaz de ter novos resultados eleitorais desastrosos, já no próximo domingo, e acabar por sair do euro dentro de pouco tempo. Quando (há ainda quem ache que se pode falar em “se”) a Grécia sair desta moeda, o jogo vai mudar radicalmente. Admito que os líderes europeus reconheçam que a austeridade imposta aos helénicos terá pesado, de forma significativa, na criação das condições para a retirada do euro. Assim, é possível que as exigências de austeridade venham a ser suavizadas por iniciativa europeia. Mais uma vez afirmo que me parece muito prematuro Portugal tomar a iniciativa e gastar capital político com isso. Se 2012 está tão incerto, que sentido é que tem pedir – agora – que o programa de ajustamento se prolongue até 2014 ou até mais tarde?

 

Por tudo isto me parece muito bem que o governo adopte a atitude do bom aluno que quer cumprir, mesmo que não esteja a cumprir tão bem como todos querem fazer crer. Como é evidente, Portugal deve aproveitar a boa vontade da troika de nos querer apresentar como caso de sucesso, avaliando-nos com alguma benevolência.

 

Acima de tudo, julgo que Portugal deve acumular o máximo de capital político, porque vai precisar muito dele quando chegar a altura de negociar as condições de saída do euro, a que seremos forçados pelas circunstâncias, quer pela saída de Espanha ou de Itália.

 

Teremos provavelmente que negociar uma desvalorização do novo escudo e precisamos que seja claramente superior à da nova peseta e da nova lira. Temos um nível de endividamento externo particularmente elevado e vamos ter que entrar em incumprimento de grande parte dele. Era da maior conveniência que pudéssemos negociar as condições desse incumprimento partindo duma posição de superioridade moral, em que cumprimos todos os compromissos que nos foram pedidos e que só estamos a ser forçados a entrar em incumprimento porque o euro se está a desagregar.

 

[Publicado no Jornal de Negócios]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 13:10 | partilhar