Os exames a sério

 

[artigo publicado no "i" de ontem]

 

Acabaram-se as provas de aferição e, já no próximo ano lectivo, os exames nos 4º e 6º anos contarão para a classificação final. A direita aplaudiu o reforço da exigência. A esquerda não gostou. Acha que os exames são “salazarentos”, o que, estando longe de ser um argumento válido, reflecte bem a sua dependência – retórica e ideológica – no Estado Novo. Mas ambos esquecem o essencial, e a acusação esquerdista, em particular, não apaga o facto de as provas de aferição terem fracassado nos seus objectivos. Na hora da sua morte, é oportuno olharmos para o que falhou, e anteciparmos o que aí vem.

As provas de aferição foram atormentadas, durante a sua curta vida, por dois principais problemas. O primeiro é o de pouco ou nada terem aferido. Os alunos não se motivaram para os testes, cuja nota não contava. Os pais não respeitaram as provas, que não tinham impacto no percurso escolar dos seus filhos. Os professores não usaram as provas para identificar as dificuldades dos seus alunos, nem para aperfeiçoar as suas práticas pedagógicas. Ou seja, os resultados das provas de aferição não reflectiram a aprendizagem dos alunos, não promoveram a melhoria e caíram, ano após ano, em saco roto. A sua missão de mobilizar a comunidade escolar foi um fracasso.

A introdução de exames, pela sua própria natureza, virá provavelmente corrigir este primeiro problema. Visto que a nota contará para a classificação final dos alunos, estes ficarão mais motivados, os pais mais envolvidos, e os professores terão mais incentivos para melhorar.

O segundo problema é mais complexo: as provas de aferição não permitiram a avaliação longitudinal do sistema educativo. Dito de forma mais simples, as provas não garantiram a comparabilidade, entre anos, dos resultados dos alunos. Esta era, aliás, uma das principais razões para a sua existência. Dar-nos instrumentos para observarmos a evolução temporal dos resultados dos alunos, para medirmos o impacto das políticas educativas, e para identificarmos as fragilidades do sistema a tempo de as corrigir.

A razão do fracasso é fácil de entender, e os resultados destas últimas provas de aferição de matemática, no 4º ano, são exemplificativos. A percentagem de negativas foi de 43%, duas vezes mais do que no ano passado (19%), e quatro vezes mais do que em 2010 (11,1%). A oscilação de resultados é de tal ordem que não dá para acreditar que estas provas tenham medido a mesma coisa. O problema está precisamente aí. Está nos programas e, sobretudo, nos enunciados que, de ano para ano, sofrem alterações – no currículo de referência, no grau de exigência, na estrutura da prova. A consequência é que, todos os anos, em vez de analisarmos os resultados, desvalorizamo-los. A responsabilidade pelas negativas nunca é dos alunos ou dos professores, é de quem fez os enunciados. Por tudo isto, as provas de aferição viveram sob descrédito.

Para este segundo problema, a introdução de exames só será resposta se romper com os erros passados. Precisamos de exames mais exigentes? Sim, mas igualmente exigentes, de ano para ano. Exames, sim, mas exames a sério.

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publicado por Alexandre Homem Cristo às 08:00 | comentar | partilhar