Notícias da frente Leste (a Polónia)

 

 

A Polónia e a Ucrânia são por estes dias palco de outras batalhas que não apenas as desportivas. Estes dois países, determinantes para o futuro da União Europeia a leste, travam uma guerra acesa contra a dependência energética da Rússia, as hipóteses de sucesso não são muitas e os aliados também não.

Vejamos o caso da Polónia, país membro da União Europeia. A Polónia não confia em ninguém, nem nos russos nem nos seus parceiros da UE, apenas em si, e talvez nos norte-americanos. Na passada semana, mais uma vez, fez saber que não está disponível para se "suicidar" às ordens da União Europeia. O seu vice primeiro-ministro e ministro da economia reiterou que a Polónia se opõe aos objectivos obrigatórios inscritos no “Energy roadmap 2050”, proposto pela anterior presidência dinamarquesa da UE. Todos os outros 26 membros da UE já apoiaram as conclusões excepto a Polónia. Mais, quer que a UE só se comprometa com novos objectivos, em termos ambientais, após um acordo mundial e que se deixe de voluntarismos – algo que não vai ser fácil, como tivemos oportunidade de ver na Cimeira do Rio+20.

É fácil criticar esta atitude da Polónia, porém não o devemos fazer com leviandade – a situação polaca é bastante complexa e merece ser tratada como um caso singular. O seu sector eléctrico é dependente do carvão em 90% e as alternativas não são muitas, a opção lógica seria o gás natural, mas a Rússia já fornece 60% do gás consumido na Polónia, o restante gás importado vem da Alemanha, e aumentar esta dependência é algo que os polacos assumidamente não querem. O documento que contém a estratégia de segurança nacional da Polónia é claro: “a maior ameaça à segurança nacional do país é a dependência da sua economia de uma única fonte energética externa”.

Os políticos polacos estão conscientes que a actual indústria do carvão está comprometida e que é preciso fazer a reconversão industrial e tecnológica. O que estão a fazer é a comprar tempo, até que tenham condições de prosseguir com outras tecnologias e fontes energéticas alternativas que lhes garantam a segurança de abastecimento e o progresso económico. Diga-se, em abono dos polacos, que alguma coisa tem sido feita: terminais de GNL, interligações por gasodutos com países vizinhos, primeiro país a avançar com a prospecção de gás não convencional (shale gas), tendo também avançado com produção eléctrica com base em energias renováveis e medidas de promoção da eficiência energética. O Governo polaco aprovou em 2009 um documento com a sua política energética até 2030, no qual prevê, por exemplo, que a tecnologia nuclear venha a representar 17% na produção de energia eléctrica (actualmente não existe) – estão a imaginar a irritação que esta medida provoca na sua vizinha Alemanha (até deu origem a uma queixa à Comissão Europeia).

O que os polacos não estão dispostos a fazer é mudanças radicais de acordo com os calendários e os termos delineados em Bruxelas, e a fazê-lo a qualquer preço – arriscando-se a provocar uma convulsão social grave com destruição do importante sector mineiro, são mais de 110.000 trabalhadores.

Mas há um problema sério, onde a oposição da Polónia não é um facto de somenos para as ambições da União Europeia, agora que toda a agenda europeia parece vir a ser apoiada na transição do modelo energético, até a França já veio dar o seu assentimento. A UE está consciente, se quiser avançar por aí, tem de: reformar primeiro o mercado de emissões. A rentabilidade dos novos investimentos em energias renováveis está dependente de um preço do CO2 elevado. Com o actual preço de mercado do CO2 não há o incentivo necessário para o desenvolvimento rápido das renováveis e do gás, ao contrário do carvão que tem queimado bem. O excesso de oferta de licenças e a crise económica afundaram o preço de mercado do CO2, a tocar agora valores na ordem dos 7€/ton. Com este preço do CO2 até o carvão espanhol das Astúrias o único risco sério que enfrenta é o de ser substituído pelo carvão da Colômbia ou da África do Sul ou mesmo da Austrália.

A Comissão Europeia parecia ter um plano para sair deste limbo e iniciar a reforma necessária na cimeira da próxima semana, mas… mais uma vez a Polónia não está pelos ajustes e vai inviabilizar qualquer alteração ao mercado de emissões. Em alternativa, a Comissão accionou o seu plano de contingência e está a estudar formas de contornar as incitativas que necessitem o consenso dos 27. Deve estar preparada para propor uma qualquer medida administrativa que impulsione artificialmente o preço do CO2 para um valor superior aos 20 €/ton, no médio prazo – só assim a “economia verde” pode ter futuro. Esperemos que no desespero de colocar este mercado a funcionar, a UE não condene um dos seus. A Polónia não merece e os riscos podem ser muito elevados, é que o projecto europeu não tem que, obrigatoriamente, começar a desmoronar-se pelo Sul.

Não está fácil a vida na frente Leste, a situação exige flexibilidade táctica e inteligência estratégica. A Ucrânia é uma outra história, fica para outra oportunidade.

publicado por Victor Tavares Morais às 00:31 | partilhar