Crónicas da Renascença: Cavaleiros do Apocalipse. Ou Talvez Não*

Terminou esta semana, no Rio de Janeiro, mais uma cimeira sobre o ambiente patrocinada pela ONU. E como acontece sempre nas cimeiras sobre o ambiente, os resultados foram uma desilusão. François Hollande, o novo presidente francês, declarou enfaticamente que "ficaram aquém das nossas responsabilidades e das nossas expectativas", uma frase que fica sempre bem a um político. Mais sucinto, mas ainda mais enfático, Daniel Mittler, do Greenpeace, disse que que a cimeira foi "um desastre" e que "os países desenvolvidos vieram sem dinheiro e sem vontade, e ainda apelaram à acção, fingindo que não são eles que estão a impedir que se avance". Mais realista, Peter Leiner, director de uma ONG americana, concluiu que "o documento final não é o que deveria ser, mas não se salva o mundo com um documento".

Estes três exemplos, colhidos no Público de anteontem, mostram porque é que as "expectativas", cimeira após cimeira, têm o péssimo hábito de ficar aquém das "responsabilidades". O problema está em que o ecologismo dominante quer mesmo "salvar o mundo". Profetiza todos os dias o apocalipse e roga-nos pragas como o dilúvio, a seca e a subida dos oceanos se não fizermos penitência pelos pecados ambientais da Humanidade.

O movimento ecologista é hoje o último sucedâneo das religiões seculares, como em tempos Raymond Aron chamou às ideologias. Nasce de uma filosofia da história que vê no homem o opressor da natureza, à imagem do capital que explora o proletariado ou do Ocidente que explora os povos colonizados. Mais do que isso, apela a uma mudança de hábitos em tudo semelhante a uma conversão colectiva. Quer castigar a poluição e o uso de combustíveis fóseis (carvão e petróleo), condenando assim o modelo económico da Revolução Industrial e, portanto, o modo de vida que, nas sociedades desenvolvidas ou nas emergentes, identificamos com a modernidade. Não admira que haja pouca "vontade" de mudar.

O mais trágico, porém, é que este modelo de desenvolvimento teve e tem inegáveis efeitos predatórios sobre o ambiente. Nem vale a pena bater no ceguinho. Talvez seja mais urgente adequar as nossas "expectativas" irreais às nossas "responsabilidades" reais - se queremos "salvar o mundo" e não apenas uma visão do mundo. 

*25/6/2012.

publicado por Pedro Picoito às 15:15 | partilhar