O não querer de Crato

 

Porque diz o Ministro da Educação isto, a saber, não querer que "nem um" professor do Quadro "saia", seja despedido ou "mandado para a mobilidade"? Crato está, por assim dizer, comprando a paz laboral/política dos docentes. Note-se que nada diz a respeito dos "outros", dos contratados. Nem precisa de o fazer.

As palavras do ministro vêm tranquilizar os professores do Quadro - são esses, e não os outros, que são os mais inconvenientes, porque mais aguerridos: para além de contarem com mais experiência (viram passar muitos ministros...), sabendo defender-se melhor, com uma desconfiança quase cínica das opções políticas dos governos, sentem-se mais seguros, e, por isso, por um lado, têm mais consciência do que lhes pode ser exigido e das condições que lhes são possibilitadas, por outro lado, sentem-se com mais liberdade para agir laboral e politicamente enquanto professores. São eles, portanto, que importa ao governo manter apaziguados. (Para além de Crato ter a vantagem da comparação com a misologia terrorista de Sócrates.)

 

Os "outros", os professores contratados, não representam grande perigo. Para além de serem em número inferior, não estão tão enquadrados em associações de classe e, pela sua própria situação permanentemente insegura, são, de facto, menos livres. Os sindicatos, por razões óbvias, tendem a mover-se mais com os professores do Quadro. Como se sabe, nestas coisas, não abunda nenhuma espécie de "altruísmo de classe" e os contratados encontram-se praticamente sozinhos. Têm sido e continuarão a ser carne-para-canhão. Cabe-lhes a infelicidade cívica de serem considerados descartáveis e de o Estado, que os preparou e os encaminhou, ter agora decidido (sim, decidido) que já não são precisos e que estão "a mais". (Fazendo um desenho para os escandalizados: decidir é escolher; quando se decide, escolhe-se B de entre as alternativas A, B, C, etc.)

 Aos professores contratados restará mendigar um lugar no mundo maravilhoso das escolas privadas portuguesas. Em muitas delas, para além de serem lesados sem defesa nas condições em que trabalharão, não serão sequer respeitados enquanto professores. Não só há uma espúria hierarquização de facto entre as disciplinas "mais importantes" e as "outras", como as direcções das escolas, reféns das propinas pagas por uma não-élite ignorante e parvenue, mais preocupada com a dimensão vertical das classificações aparentes dos filhos do que com a sua formação e boa educação, violam, sempre que convenha, as autonomias científica e pedagógica dos professores, sem as quais estes deixam de ser o que são. Produz-se, assim, ali, uma alienação do professor. Traduzindo: as classificações são alteradas "administrativamente". Os παιδαγωγόι da Antiguidade eram mais livres...

Também por estas razões, o Ensino Público, em muitos sentidos, tem, no fim de contas, se não quisermos ser preconceituosos, genericamente, mais qualidade do que o privado. É mais reliable.

publicado por Carlos Botelho às 01:35 | comentar | partilhar