Do dever social de somar (1)

A sopa dos pobres nos EUA durante a Grande Depressão

 

 

Quando olhamos para cada parcela da nossa vida neste país, é fácil entusiasmarmo-nos com coisas que não têm preço, que é preciso preservar a todo o custo. Cortar na educação? Nunca, é o futuro. Na saúde? Nunca – sem saúdinha, o que somos nós? Nas pensões? Que injusto, o valor de uma sociedade mede-se pelo respeito que se mostra aos idosos! E por aí adiante.
E assim vamos andando, sem somar as parcelas todas, gastando, gastando o dinheiro de outros. Mais tarde, quando a dura realidade se impõe, por uma crise de dívida, comemos com ataques à justiça, aos contratos, à soberania, e sim, também às pensões, saúde e educação. Não é difícil ver que estas derrocadas e cortes forçados têm um efeito final pior do que se tivéssemos tido algum bom-senso desde o início.
Todos aqueles que dizíamos defender, os trabalhadores, os velhinhos, as crianças, pagam a factura agravada… da nossa preocupação social.
Pois é, somar é duro, despedir é chato, mas o mal maior parece ser mesmo o de ignorar a realidade, mesmo que lhe chamemos humanismo ou preocupação social. Saem caros, certos idealismos. É bom sonhar o bem mas convém não sonhá-lo só com dinheiro sonhado.
Não falei do peso do Estado nem da liberdade dos mercados. Este não é um post liberal, nem tecnocrata, nem pragmatista. É um post de preocupação social, um argumento social para o dever de somar as parcelas todas.
Afinal, porque é que havemos de limitar as nossas preocupações de equidade apenas ao grupo de que estamos a falar num determinado momento? Os outros não são gente?
Trata-se de distribuir as porções do alimento pelos vários que se aproximam para a receber. Podemo-nos fazer de ofendidos sempre que se reduz a dose a um, e a outro (tão esfomeado está!)… mas um sinal genuíno de preocupação social será preocuparmo-nos em olhar para o fim da fila. E a nossa fria matemática de dividir equitativamente, tendo presente o total, será verdadeira caridade.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 16:39 | partilhar