Diário de um cínico

Os resultados das eleições presidenciais no Egipto, que deram a vitória a Mohammed Morsi com 51% dos votos, vieram confirmar os receios de que os islamistas tomem conta da Primavera Árabe. Com os 71% nas legislativas e uma larga maioria na comissão nomeada pelo Parlamento para redigir a Constituição, a Irmandade Islâmica é agora o rosto da transição democrática no país. Não se pode dizer que haja motivos para sorrir.

Paradoxalmente, a dissolução do Parlamento pelo Supremo Tribunal Administrativo e o decreto que concentrou poderes nas mãos das Forças Armadas, um verdadeiro golpe de Estado que se antecipou aos resultados conhecidos anteontem, talvez tenha salvo a democracia egípcia. Não albergo ilusões sobre o amor à vontade popular do exército, sustentáculo do regime de Mubarak até à sua queda. Mas os militares, no Médio Oriente, são ainda a última barreira da laicidade contra o fundamentalismo islâmico. A Turquia de Ataturk continua a ser o modelo histórico de modernização para muitos muçulmanos. Os generais reconheceram a vitória de Morsi e não repetiram o histórico erro argelino, mas só Alá sabe quando e como deixarão o poder.

O que, de resto, nada tem de exclusivamente árabe. A democracia portuguesa, para não ir mais longe, foi tutelada pelos capitães de Abril até à extinção do Conselho da Revolução em 82. E cá estamos. Mesmo que Otelo e Vasco Lourenço suspirem por um novo PREC. 

Quanto às esperanças nascidas na Praça Tahrir, repito o que já aqui disse. O teste da normalização democrática será o respeito dos islamistas pelos direitos das mulheres, da minoria copta e de Israel. Veremos o que acontece com Morsi na presidência e uma Constituição feita pelo seu partido.  

publicado por Pedro Picoito às 23:25 | partilhar