Uma observação

Este post assenta em e parte de um erro fundamental: o de considerar haver uma espécie de "falta de bom senso" político que seria perene, que se manteria diacronicamente ao longo de décadas, de vários governos e agentes políticos, etc.
Acontece que as coisas não são assim. Uma medida, uma opção política que, agora, no presente, nos parece falha de "bom senso", não o seria necessariamente assim na época, no tempo em que foi tomada. Pode muito bem acontecer (e acontece certamente, pelo menos em alguns casos) que o nosso olhar do presente se constitua numa perspectiva enviesada sobre esta ou aquela opção política. Isto é, muitas medidas que agora são descritas como escandalosamente inadequadas ou "erradas" (e, num certo sentido, essa perspectiva é sempre "verdadeira", porque é inevitavelmente adequada ao tempo em que acontece), eram, no seu tempo, "racionais".
Não existe qualquer coisa como uma decisão política "essencialmente" errada, errada em si mesma independentemente de tudo o resto, que paire num qualquer éter acima das contingências humanas, um éter "científico", puro. Nesse céu da Verdade com V maiúsculo, descobriríamos, sempre com boa consciência epistemológica, as opções erradas e as opções certas...
Por outro lado, o uso fácil (de resto, na moda) de expressões como "idealismos" e "ignorar a realidade", para além de equívoco, tem apenas um valor retórico, não correspondendo a nada de substantivo.

publicado por Carlos Botelho às 02:12 | comentar | partilhar