"Pensamento" mono-neuronal

Formas do "pensamento" mono-neuronal descritas aqui e ali. A enunciação de chavões e estribilhos não passa de um disfarce para a ausência de pensamento. Ou, alternativa trágica, pode ser tomada pelo próprio como um pensamento.

 

Por outro lado, o que chega a ser nauseante é o carácter (até custa usar esta última palavra) tremendamente desinteressante do discurso dominante da tropa que agora temos por aí. É um discurso que, num sentido, nem chega a ser merecedor de se chamar "político". São como títeres que papagueiam enunciados retoricamente eficazes, mas que não resistiriam ao mínimo exame se fossem inquiridos, escalpelizados. Geralmente, são enunciados que não chegaram a ser sequer apropriados, apenas são repetidos de um modo insubstantivo.

"Papaguear" é um bom verbo para descrever a coisa, na medida em que o vistoso animal não sabe o sentido dos sons que emite. Por exemplo, quando ouço os exemplos citados ou, ainda mais, o ministro Relvas pronunciando, grave, com uma solenidade intelectual impante, a palavra "cosmopolitismo", para justificar esta tirada de Passos Coelho, ocorre-me logo o macaco de que Kandinsky fala na Introdução do seu Sobre o Espiritual na Arte: o bicho está sentado, empunha um livro diante do nariz, folheia-o,  põe um ar grave, sério - mas a estes gestos não corresponde qualquer compreensão interior do seu sentido [Vide]. Para nossa desgraça, o discurso dominante é o de Affen mit bedenklichen Gesichtern.

publicado por Carlos Botelho às 00:20 | partilhar