Do dever social de somar (3)


Há uma dimensão deste problema da recusa dos números por suposta preocupação social que parece particularmente relevante nos dias que correm.
A partir do momento em que nos endividamos, estamos a fazer negócio com o futuro.
Como é que podemos deixar de alargar a nossa preocupação social aos que virão depois de nós? Tenho humanidade e compaixão quando tapo a pobreza de hoje com uma pobreza maior de outro, mas que só chegará amanhã?
O que vale a minha preocupação social de hoje, a minha defesa obstinada dos direitos das pessoas, se é em detrimento dos direitos dos filhos dessas mesmas pessoas?
Não vos dá calafrios olhar para a geração que nos segue e pensar no que lhes estamos a deixar em herança? Eu não me senti culpado quando, nos últimos 20 anos, iam abrindo as auto-estradas, quando iam melhorando os hospitais e as escolas, quando se iam substituindo rapidamente as televisões para acrescentar uma ou duas polegadas de pixéis em 24 suaves prestações.
Mas tudo somado, olhando para a nossa dívida (do Estado, das empresas e das famílias), o que estamos a deixar para os nossos filhos? Não lhes fomos roubar algum bem-estar e segurança para nos confortarmos com o supérfluo?
Sim: é verdade que o que parecia bom-senso ontem pode já não parecer hoje. Mas não víamos nada? Não havia vozes a avisar-nos? Não temos um dever de desconfiar de benesses demasiado fáceis? E, agora que o vemos, onde está a vontade de reparar pelos nossos erros e repôr alguma justiça? Ou foram só os outros a errar?
O problema já está aí, nem é preciso esperar. Já fechámos as portas aos que estão agora a sair da universidade… Nem lhes damos os empregos que eles precisam para pagar as nossas dívidas… mas que ninguém nos mexa nos nossos direitinhos adquiridos!
Quando a troika se for embora, se o seu plano tiver corrido todo bem (grande se!), deveremos mais dinheiro do que devíamos quando eles chegaram. Teremos passado 3 anos a chorar cortes, e o problema do nosso deficit deverá estar reduzido a metade… mas ainda um deficit. Ainda estará por começar o pagamento da dívida. Considerar todas estas coisas dá-nos uma medida melhor do problema que criámos. Este nó é muito complicado de desatar: não basta encher-nos de bons sentimentos e desatar a ser generosos e altruístas. Vai ser preciso muito trabalho e muito engenho, boa gestão e boa política. E moderação nas queixas.
Temos um dever social de somar as parcelas todas e cortar o que houver a cortar nas nossas vidas. E sem deixar de fora as parcelas de amanhã.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 11:17 | comentar | partilhar