Esquerda sem alternativas

 

Publicado no jornal "i"

 

Há uma nova teoria da conspiração. Para muitos, é já uma espécie de argumento mágico para atacar o governo, e não há dia em que não surja na imprensa. Diz a teoria conspirativa que a direita governa para desmantelar o Estado Social. Que a austeridade não é imposição, mas sim ideologia. E que o governo não renegoceia já o memorando de entendimento, porque o usa como alibi para privatizar tudo o que mexe. Em resumo, diz-nos que o governo é mau, mas não nos diz o que fariam os bons.

De facto, a teoria conspirativa não indica uma única alternativa (realista) à actuação do governo. Aponta o dedo ao inferno e recomenda o paraíso, sem dizer onde fica e como lá se chega. É, portanto, um exercício de retórica. Mas foi o suficiente para unir um grupo de personalidades de esquerda, e lançar um Congresso Democrático de Alternativas (CDA). Não se sabe o que, em Outubro, sairá destas cabeças, mas imagina-se. Conhecendo algumas das personalidades convocadas, é, até, fácil de antecipar as suas alternativas e respectiva inutilidade. Mas, apesar disso, o CDA não deixa de ter vários significados.

 

Em primeiro, trata-se de um importante reconhecimento público que, actualmente, não existe alternativa ao governo. É um sentimento fatalmente partilhado por vários deputados do PS, e que tem na relação com o memorando de entendimento a questão central. Memorando que muitos dos insatisfeitos, irresponsavelmente, gostariam de ver António José Seguro rasgar.

Em segundo, este Congresso marcará oficiosamente a saída política de Louçã, e possivelmente o início de um novo ciclo na política portuguesa. A ausência de alternativas políticas, o enfraquecimento do PS e a incapacidade de Louçã em fazer compromissos políticos conduziram a esquerda a um beco sem saída. Por isso, a promoção do diálogo entre essas personalidades de esquerda poderá ser útil. Sobretudo, se promover o amadurecimento democrático a que o BE tanto resiste. E, mais ainda, se o transformar no aliado natural do PS e seu eventual futuro parceiro de coligação. É, desde 2009, evidente a necessidade de a esquerda se repensar e se redefinir. E é também evidente que o radicalismo demagógico de Louçã é o maior obstáculo a ultrapassar.

Em terceiro, tendo em conta o perfil dos protagonistas deste Congresso, tudo leva a crer que o reposicionamento político das esquerdas, a acontecer, se fará mais no campo ideológico do BE, e menos no do PS. Vivendo-se hoje uma crise europeia, tanto política como económica, este não deixa de ser um sinal preocupante. Porque o PS, enquanto partido da construção europeia, se encontra à deriva. E porque os partidos à sua esquerda sofrem, em doses redobradas, dos mesmos vícios despesistas. O alheamento à realidade não é, por definição, uma alternativa realista.

 

A esquerda continua sem aceitar que as políticas de endividamento excessivo acabaram. E que o memorando da troika, por mais desagradável que possa ser, não é para rasgar. Enquanto não reconhecer estas evidências, manter- -se-á num estado de negação. No próximo 5 de Outubro, só se as aceitar, poderá propor alternativas.

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publicado por Alexandre Homem Cristo às 08:00 | comentar | partilhar