Fim do euro (43) A Alemanha e o euro

O futuro do euro depende – de forma crucial – da Alemanha e, por isso, é essencial perceber o que move este país e até onde está disponível para defender o euro. No entanto, este Estado tem-se comportado duma forma difícil de perceber e que impede que se leve inteiramente a sério as declarações oficiais.

 

Durante o pós-guerra a Alemanha cedeu com facilidade às pressões e chantagens para pagar a Europa, como se fossem umas reparações de guerra. No entanto, após a reunificação essa predisposição alemã para pagar desvaneceu-se, o que não deve causar estranheza.

 

Neste ponto julgo que não deve haver dúvidas: a Alemanha estabeleceu um limite para gastar com o euro e as resistências a aumentar a capacidade do Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE) devem ser levadas a sério. Quando a chanceler diz que não vai haver mais fundos para o MEE comprar as dívidas de Espanha e Itália deve-se acreditar nisso.

 

Por outro lado, a Alemanha quer proteger os bancos alemães, que estão carregadíssimos de dívida dos países em risco. Para isso precisa de comprar tempo e não lhe interessa uma resolução rápida da crise do euro.

 

Finalmente, e esta é a parte mais incerta, talvez o governo alemão veja duas possibilidades no futuro. Ou todos os países passam a adoptar as políticas alemãs e o euro sobrevive; ou há países que não conseguem cumprir as metas orçamentais e acabam por sair do euro. Neste segundo caso, o executivo alemão está preocupado em não ficar em posição de ser acusado de destruir o euro. Quererá ter um discurso de que a Alemanha ajudou até um certo ponto, mas depois foram os países periféricos que não fizeram o seu trabalho de casa e não convenceram os mercados.

 

Há um aspecto em que a Alemanha tem razão: é preciso colocar um limite na ajuda, ainda que se possa discutir qual deve ser esse limite. Se não houver um limite, então é um poço sem fundo e, ainda por cima, é como se a ajuda fosse afinal contraproducente, por substituir as reformas estruturais.

 

Depois de expor isto parece que já estou em condições de responder a uma dúvida que me tem perseguido: se a Alemanha não acredita no futuro do euro, porque é que não acaba já com ele? O governo alemão ainda não está convencido que o euro vai acabar, talvez ainda possa sobreviver, numa versão reduzida. Por outro lado, precisa de tempo para capitalizar os bancos alemães e, ainda precisa de não sair completamente chamuscado de todo este processo.

 

Mas o executivo alemão está errado ao pensar que o euro estaria bem se todos os países adoptassem políticas alemãs. Porque as políticas alemãs, nomeadamente de ter um superavit externo de 5% do PIB, superior ao superavit externo da China (3% do PIB), são insusceptíveis de ser repetidas no resto da zona do euro.

 

Vistos desta perspectiva, não custa tanto perceber os resultados da cimeira europeia da semana passada. Em primeiro lugar, não há nenhuma cedência imediata, tudo vai demorar muito tempo, tanto tempo que a Espanha e a Itália podem ser forçadas a sair do euro antes das primeiras medidas produzirem efeito.

 

Para além disso, a compra de dívida soberana em risco pelo MEE não é uma verdadeira cedência, porque já estava prevista e pressupõe um Memorando de Entendimento, embora não tão exigente como o assinado com a troika pelos Estados que já pediram ajuda.

 

As outras concessões, como a ajuda à banca, foram formuladas de forma tão vaga que podem facilmente ser torpedeadas na concretização dos detalhes.

 

Aliás, quando a Alemanha defende um caminho de federalização orçamental, não deve ser levada a sério. Esta é uma clara jogada política. O governo deste país finge-se muito disposto a ceder, exigindo como contrapartidas condições que sabe serem totalmente inaceitáveis para vários países. Na verdade, está unicamente a tentar livrar-se do ónus da culpa de destruir o euro. Veremos a quem sai furado este jogo. 

 

[Publicado no jornal "i"]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 11:32 | partilhar