Um ministro de outra dimensão


 Aqui [a partir dos 4min.], o Ministro dos Assuntos Parlamentares, confidencia a quem o quiser ouvir que, suspendesse ele o processo de privatização da RTP, e os seus Sábados [dia do Expresso] poderiam ser mais tranquilos, isto é, sem o incessante fluxo de notícias e reportagens a respeito da sua licenciatura.

Talvez tenha escapado aos ouvintes o alcance quase humanamente inacessível desta confidência. Relvas diz-nos que o passado não é um conjunto imutável de realidades que ficaram para lá, por assim dizer, terminadas. Não. A verdade, como de costume, é mais complexa. Relvas diz-nos que o presente, ou antes, aquilo a que nós humanos comuns não-universitariamente-hiper-creditáveis chamamos "presente" pode influenciar, mais, pode determinar o passado. Quer dizer, nesse passado da vida do ministro isto nunca aconteceu. Talvez, nessa dimensão banal do tempo, nem exista essa coisa chamada Universidade Lusófona. (Quem sabe, num outro mundo possível não haveria estas coisas Lusófonas, estas coisas Relvas-ministros e, numa cadeia inabarcável de seres, a coisa José Sócrates, etc. Mas não reeditemos Voltaire contra Leibniz.) Para alguns, encontramo-nos, aqui, no plano do maravilhoso, mas Relvas tem toda a convicção da Ciência. Acontece que, quando o Ministro empreende e forceja pela privatização da RTP, subitamente, num movimento imaginoso das próprias coisas escapável mesmo a um Bradbury, despontam, num passado que críamos já perfeito, realidades novas antes não existentes.

Quer dizer, aquele percurso (chamemos-lhe assim) académico (chamemos-lhe assim) de Miguel Relvas nunca tinha acontecido e só passou para a existência (um génio, este político!) quando ele, no seu ímpeto reformista, feriu uns quaisquer interesses que se revelam capazes de alterar o próprio passado. Para quando a comunicação disto à Academia das Ciências?...
publicado por Carlos Botelho às 19:00 | comentar | partilhar