Ferindo a susceptibilidade de alguns leitores

Comecemos por um texto convicto de bondage (passivo) crematistofílico: este. E, enojados, deixemo-lo já.

 

Depois, temos dois artigos que são de uma demagogia repugnante: este e aquele. Custa mesmo lê-los até ao fim. Mas são exemplares. (Ainda que consigam estar acima de casos de inacreditável pura estupidez, como este.)

O carácter repugnante dos dois artigos é tanto maior quanto sabemos ter o seu autor consciência de estar a enviesar o (nosso) olhar sobre "factos" ("colocar em perspectiva", diz!). Ele sabe muito bem que está a distorcer realidades ou a desfocá-las ou a "menti-las" para que elas nos apareçam sob um aspecto que não lhes corresponde. Para quê? Para nos persuadir custe o que custar. O problema está neste custe o que custar... Isto é, mesmo que custe a honestidade. Quando alguém faz isso, antes de assassinar a "verdade", ou, pelo menos, antes de assassinar uma qualquer adequação à "realidade",  assassina-se, primeiro, a si mesmo. Coisifica-se. Faz-se, assim, um serviço. E servir é sempre correlativo.

É possível, é sustentável açular-se conscientemente o ressentimento e a inveja sociais? Onde está o princípio que justifique isso? Em lado nenhum. As razões para esses modi operandi são sempre inconfessáveis - porque são moralmente inaceitáveis e inaceitadas.

Defende-se uma dama, opta-se por um "lado". O que, em si, já não é inócuo. É bom. É desejável escolher-se e bater-se por um dos "lados", é uma obrigação mostrar aos outros com o que contam, sem ambiguidades medrosas duma prudência suspeita. Mas já não é aceitável sacrificar-se a seriedade, a honestidade, a essa escolha. Sem rodeios, devemos perguntar: quem escreve artigos como aqueles é honesto? E responder: não.

Os jornais, as televisões, os blogs, estão pejados de coisas destas.

 

Vejam se esta pode ser uma regra: não importa a justeza do lado que escolhes, não é este que deve estar subordinado àquela, mas deve ser a aparência daquela que deve estar submetida a este. Por outras palavras, se o que importa é o "partido" que escolho esquecendo todo o resto (incluindo nessa rejeição "valores"), então, posso recorrer a tudo para defender a posição desse "partido" que escolho. Pode este comportamento tão abundante por aí ser erigido em regra? Não, porque é auto-destrutivo: este tipo de "argumentação", ainda que com eficácia pontual na sua tribo (tribo agora "liberal", antes "socrática", mas sempre acéfala), mina a própria possibilidade de denunciar as falhas do adversário. Se defendo a minha posição pela simples razão de ser a posição que escolhi, então sou incapaz de mostrar que ataco a posição adversária pela sua não-justeza e não por ser apenas a adversária. Provoco, assim, a mútua anulação das duas posições. Se a invalidade da posição contrária à minha está somente em ser contrária à minha, então a contrária vale tanto quanto a minha.

 

Outros exemplos, estes a respeito do famoso acordão do Tribunal Constitucional declarando a inconstitucionalidade da suspensão do pagamento dos subsídios de férias e de Natal aos servidores do Estado, são este artigo, esta prestação televisiva, ou este e aquele post, entre muitos outros. As pessoas em questão, com graus diferentes, poderiam muito bem ter discutido seriamente as teses do acordão (isto é, mostrar que são literalmente discutíveis), mas não. Optaram por comparar realidades não-equiparáveis, forçando uma equiparação com propósitos meramente retóricos, com alcance demagógico, procurando, como sempre, obter uma adesão imediata (isto é, não-mediada) a teses defendidas, assim, de modo espúrio (ainda que retoricamente eficaz, já sabemos, uma vez que excitam o ressentimento e a inveja). Este discurso incessantemente falacioso parece assentar numa espécie de embirração "ideológica" só comparável - o seu reflexo invertido - às tiradas de Louçã sobre "os banqueiros".  Agilidade "escolástica" e tradição intelectual à parte, os "funcionários públicos" são "os banqueiros" desta Direita.

publicado por Carlos Botelho às 02:00 | comentar | partilhar