Esfigmomanómetro cívico

 
Nestes dois dias de greve dos médicos, independentemente dos conteúdos das posições antagónicas e das paixões de claque tribal que por aí se fazem ouvir (porque é inegável haver, invocados pelos dois "campos", problemas ponderosos que deverão ser considerados mutuamente), não deve ser esquecido que esta opção de "luta" (para usar a linguagem sindical) não pode ser condenada por princípio, sem, ao mesmo tempo, se rejeitar tudo aquilo que acreditamos ser politicamente são. Nesse sentido, tendo em conta o que está em causa, uma greve como esta não deixa de ser uma iniciativa civicamente meritória. (Talvez não se possa dizer o mesmo de outras que se anunciavam há dias...). O Ministro da Saúde, com um discurso político inteligente e decente (qualidades nem sempre a par), parece reconhecê-lo efectivamente.

Por outro lado, quando as coisas chegam a este ponto, é bom, é democrática e liberalmente são que uma greve deste género seja bem sucedida. Neste tipo de confrontos sobre políticas, a falta de comparência do outro lado, leva a que o governo (qualquer que ele seja) fique mal habituado. Num sentido, nestes contextos, os governos são como as crianças, têm de ser educados: se a famosa "sociedade civil" não lhes fizer ver alguns limites, tendem a abusar.

E poderemos ver, também, por estes dias, se os médicos constituem uma classe profissional forte ou se são, por exemplo, como os professores.

publicado por Carlos Botelho às 12:15 | comentar | partilhar