28 – Cemitério dos Prazeres

Alguns cemitérios de Lisboa têm nomes algo paradoxais: Ajuda, Benfica e Prazeres. Este, que se situa em frente de uma das paragens terminais do 28, recebeu o nome de uma Quinta que aí existia antes da sua construção em 1833. Neste ano, os lisboetas sofreram uma forte epidemia de cólera, que causou um número muito elevado de mortos e por esta razão se construíram dois cemitérios públicos: Prazeres e Alto de São João. São os dois primeiros cemitérios públicos e surgem no contexto da política liberal que era contra os enterros nos espaços religiosos. Tanto assim era que em 1835, por legislação de Rodrigo da Fonseca, foram interditados os enterros em Igrejas e demais edifícios religiosos e se obrigou à construção de cemitérios públicos.  Dava-se assim início à laicização da morte com a separação da dimensão espiritual. A revolta da Maria da Fonte está muito ligada a esta questão.

Volto à Quinta dos Prazeres que foi vendida (julgo que pela família Palmela pois tinham propriedades nesta zona de Lisboa) ao Estado num tempo muito agitado da vida política do país em que muitos foram os negócios de compra e venda e a lembrar tempos atuais (obviamente com outros contornos e contextos). Se público foi (e continua a ser) o cemitério, a instalação de imponentes jazigos privados foi uma realidade que se verificou desde sempre. Desde logo por aqueles que ocupavam ou controlavam o poder (na sua grande maioria liberais e de obediência maçónica que sempre e também na morte gostam de manifestar o seu poder). Alguns são obras de arte referenciadas e não por acaso, o Cemitério dos Prazeres integra qualquer guia turístico (nacional ou internacional) da cidade de Lisboa.

 

 

 

As fotos acima são dos jazigos da família Carvalho Monteiro (o Monteiro dos Milhões e da Quinta da Regaleira) e dos Duques de Palmela (um verdadeiro mausoléu). A simbologia maçónica é bem evidente em muitos jazigos e com especial evidência nestes dois.

Atualmente, são sete os cemitérios municipais. Cemitérios privados: Cemitério dos Ingleses (de 1717 e junto ao jardim da Estrela) e Cemitério dos Alemães (de 1822 e com entrada na Rua do Patrocínio). O 28 passa pertos destes dois.

Para além destas questões, o cemitério é, talvez, o único espaço físico que nos aproxima da morte e a sua visita faz parte das nossas tradições. Também da minha pois o meu avô materno aqui se encontra sepultado. Na perspetiva cristã, que é a minha, o cemitério, em si mesmo, não tem qualquer significado. Mas do ponto de vista simbólico, aí nos encontramos perante a dimensão mais incontornável da nossa vida – a morte. Num tempo em que afastámos a morte das nossas vidas, o cemitério ainda permanece. Até quando? (em breve eliminaremos o feriado de 1 de Novembro que a tradição levou e ainda leva muitos a este local)

publicado por Vasco Mina às 09:20 | comentar | partilhar