O apocalipse escolar que nunca chegou

 

A educação é um tema particularmente permeável a mitos. Não foi por isso surpresa que, durante este primeiro ano de governo, tenham sido vários os que surgiram pela voz de partidos políticos e sindicatos. A introdução de exames no sistema educativo, nos 4º e 6º anos de escolaridade, deu origem a alguns desses mitos. O seu anúncio provocou acusações de regresso ao salazarismo – já se sabe, a esquerda não consegue viver sem o Estado Novo – e serviu de pretexto para criticar a existência de exames em todo o ensino básico.

 

De um dia para o outro, tudo o que era avaliação nas escolas tornou-se uma conspiração da direita para excluir alunos. Em consonância, previu-se uma razia nos exames. Adivinhou-se o retorno a um sistema educativo elitista, que exclui mais do que ensina. Anteviu-se o aumento das taxas de retenção, já de si elevadas. E profetizou-se um apocalipse escolar. Ora, a 1ª fase de exames passou e os resultados foram publicados. O apocalipse, por muitos ansiado, não chegou. Agora que temos os factos à nossa frente, importa esclarecer os mitos criados.

 

Mito 1: os resultados dos 6º e 9º anos seriam um desastre. Não foram. No 6º ano, as médias foram positivas, tanto em Português (59/100) como em Matemática (54/100). Estes resultados estão alinhados com os dos últimos anos, mesmo que ligeiramente mais baixos. No 9º ano, os resultados foram melhores do que no ano passado, e em Matemática atingiu-se a 3ª melhor média desde 2005, 10 pontos acima da média de 2011.

 

Mito 2: introduzir exames é aumentar retenções. Não é. Na verdade, contando 25% ou 30% da nota final de um aluno, no 4º ou no 6º ano, o exame tem curtíssima margem para alterar a classificação final do aluno. Isto porque, numa escala de 1 a 5 valores, qualquer aluno com positiva (3 valores ou mais) está matematicamente protegido de ter negativa, se o exame contar 25%. E se contar 30%, serão pouquíssimos os alunos que passarão de positiva para negativa, como demonstra a análise dos resultados do 9º ano que o Expresso fez (7/7/2012). Ou seja, terá positiva na classificação final quem tiver positiva na escola.

 

Mito 3: os exames não são necessários. São. E em particular nos sistemas que privilegiam a autonomia de gestão das escolas, prioridade assumida por este Ministério da Educação. É que com mais liberdade vem mais responsabilidade, e consequentemente a necessidade de verificar as aprendizagens através de exames. Não é uma inovação portuguesa, é prática em inúmeros países, porque os exames são um instrumento para avaliar o sistema e responsabilizar a comunidade escolar perante os resultados.

 

Desfeitos os três mitos, fica a pergunta. A quem serve este alarmismo comprovadamente alheado da realidade? Serve aos sindicatos e às associações de pais, que inflamam os espíritos nas escolas e nas famílias. Serve aos partidos políticos, que do ruído constroem um ataque ao governo. Mas não serve aos alunos. A tragédia é esta. A instabilidade nas escolas existe, mas é causada sobretudo por quem dela se alimenta. É esse o retrato do nosso debate na educação. Os alunos, esses, acabam sempre ultrapassados pelos outros.

 

[publicado no i]

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publicado por Alexandre Homem Cristo às 07:00 | partilhar