A comunicação social e a política

Dentre o que foi dito e o que ficou por dizer durante o debate do IDL-Instituto Amaro da Costa, que colocou o Carlos Magno e o Joaquim Vieira a falar sobre a relação entre a comunicação social e a política, deixo aqui algumas conclusões a que cheguei:

 

1. Não obstante o primeiro ponto do Código Deontológico do Jornalista afirmar que “a distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público”, não é raro assistirmos hoje à prática de um “jornalismo interpretativo” (para usar a expressão cara ao Ministro Miguel Relvas), em que os autores das notícias não deixam os factos falar. Em vez de ser deixado às pessoas a liberdade de formar a sua própria opinião a partir dos factos relatados, os jornalistas optam antes por antecipadamente formar e influenciar a opinião de quem procura relatos meramente objectivos e fieis. A política não incumbe ao jornalista e sobretudo não incube ao jornalista que tem como matéria de trabalho os assuntos políticos.

 

2. Há hoje um consenso em torno do facto de as relações entre os jornalistas e os políticos ser demasiado interdependente – os políticos usam os jornalistas para veicular informação que lhes interessa e os jornalistas usam os políticos para ter material de trabalho – dando lugar a familiaridades e cumplicidades perversas, desde logo ilustradas pelo facto de uns e outros se tratarem pelo primeiro nome. Alguns dizem que o problema principal está na precariedade da carreira dos jornalistas, que hoje muitas vezes parece servir de rampa de lançamento para outras actividades profissionais.

 

3. Ficamos a saber que as pressões dos responsáveis políticos a órgãos de comunicação social são frequentes e que a regra passa pela sua desvalorização por parte das direcções. Pode-se compreender que tem haver bom senso e equilíbrio no modo como os órgãos de comunicação social reagem a pressões, mas da suspeita de que o tipo de reacção às pressões poderá ter menos a ver com a gravidade da pressão e mais com a sua cor política já ninguém se livra.

 

4. Independentemente do muito que foi dito, eu encontrei uma virtude na deliberação da ERC. Foi nela que sem esforço encontrei a descrição exaustiva do caso Relvas-PÚBLICO. Complementarmente, fiquei a conhecer melhor o modo como evoluem as relações entre os profissionais e órgãos de um jornal. De qualquer modo, concedo que isto seja pouco e que não seja este o papel devido a uma entidade reguladora da comunicação social. O que a deliberação da ERC poderia e deveria ter sido, e quais as suas implicações caso tivesse sido diferente, é algo que ainda não consegui perceber.

 

5. É necessário que haja regulação e que o regime democrático esteja salvaguardado dos perigos que decorrem do uso abusivo do poder político. Mas o inverso é igualmente verdadeiro. O poder da comunicação social junto das pessoas e a influência que exercem nas suas opções políticas não é menos relevante. A regulação também deve passar por impedir que os profissionais da comunicação social cedam à tentação de também eles fazerem política.

 

6. Não existe um código deontológico dos políticos. Mas existe um escrutínio permanente da actividade política que passa pela justa ou injusta descredibilização deste ou daquele político e pela sujeição ao voto dos eleitores. Os jornalistas têm um código deontológico. Mas independentemente do bom ou mau jornalismo que façam, não são sujeitos a qualquer escrutínio, podendo permanecer na carreira eternamente enquanto estiverem nas boas graças de quem lhes paga.

publicado por Nuno Lobo às 16:00 | partilhar