Crónicas da Renascença: Mozart e os Três Teólogos*

Há 15 dias, recomendei aqui a Autobiografia de Chesterton, recentemente editada pela DIEL, como livro a levar para férias. Hoje faço o mesmo com Confissão por Mozart, um pequeno conjunto de textos de três dos maiores teólogos do século XX (Von Balthasar, Karl Barth e Ratzinger) sobre o compositor de Salzburgo. Com edição da Lucerna e traduzidos por Andreas e Wolfgang Lind, são textos amenos, sem nada de técnico e acessíveis a quem não tenha conhecimentos especializados nem de música nem de teologia. Tal como a obra de Mozart.

De resto, a aparente facilidade da música de Mozart (“fácil para as crianças e difícil para os intérpretes”, diz o pianista Alfred Brendel, citado por Joana Carneiro na Introdução) é um dos fios condutores do livro. Uma facilidade em que Barth vê um “acesso directo a Deus”, chegando a compará-la ousadamente à Revelação bíblica, e Ratzinger uma especial “inspiração”, palavra conotada com as Escrituras na tradição cristã.

Mozart “diz como tudo é” e “apreende o universal”, acrescenta Barth. “Quem o escuta pode compreender-se a si mesmo enquanto Homem” porque a obra de Mozart exprime a plenitude da nossa condição em todas as dores e esperanças, tristezas e alegrias, derrotas e vitórias. Nos momentos de júbilo, transporta sempre em negativo a inquietação de quem sabe que o mal e o pecado ameaçam o mais inocente gesto humano, e nos momentos trágicos  dá-nos “o cântico triunfal da criação redimida, cujo sofrimento e culpa não se representam como passado, mas como presente superado e vencido, perdoado e iluminado”, na fórmula entusiasta de Von Balthasar.

Em Mozart, “a gravidade flutua e a leveza torna-se pesada”. Como a própria vida. É um clássico profundamente humano. É um clássico porque é profundamente humano.

 

*22/7/2012

publicado por Pedro Picoito às 09:22 | comentar | partilhar