Devemos preocupar-nos com a Demografia? (I)

 

Na sequência de vários posts aqui no Cachimbo que tocaram este tema, queria deixar também algumas reflexões sobre o assunto. Em diversos posts tentarei abordagens diversas ao assunto.

 

A primeira observação é que a preocupação pelo declínio na fecundidade em Portugal, como em qualquer outro lugar, remete para um problema cultural.

 

Ou seja, olhamos para o número de filhos dos portugueses, mas também olhamos para os fenómenos migratórios. Nascem menos portugueses, mas podem vir para cá muitos estrangeiros e o número de habitantes mantém-se constante. O que fica em causa é a identidade do país, a cultura que será fruto desse mix de gente. Para algumas pessoas isso é preocupante, para outras é absolutamente indiferente.

 

É bem verdade que o Portugal que temos hoje é fruto de muita mistura populacional, pois somos um povo aberto, emigramos e admitimos bem a imigração. É uma das nossas qualidades, e essa abertura é ela mesma um traço da cultura portuguesa. Portanto "o Portugal que eu amo" inclui traços de África, do Brasil, de muitos países da Europa, de influxo cultural americano, etc.

 

Com o declínio da fecundidade observado nos últimos anos entre os portugueses, torna-se certo que a população futura, olhando para os próximos 20 ou 40 anos, ou será muito menor, ou será muito diferente (se houver imigração). A própria diminuição de população autóctone é um convite à imigração, pois as estruturas existentes no país "pedem" quem as ocupe e as faça perdurar.

 

Não imagino nem desejo que a cultura portuguesa daqui a 20 anos possa ser igual à de hoje: de tão grande e variado "caldo" de gente sempre surgirão coisas novas.

 

Mas temo que possamos assisitir a uma mudança demasiado grande, demasiado rápida (porque o nosso inverno demográfico tem essa escala), e que haja um declínio cultural que venhamos a lamentar. Sei que outras pessoas com opinião distinta sobre os valores de Portugal e do passado português não se preocuparão muito com isto (e espero que em 2012 já se possa escrever esta frase sem temer leituras paranóicas centradas no Estado Novo...). Os nossos tempos não são nada bons na preservação de tradições e de valores culturais, são muito melhores em abraçar revoluções e engolir indiscriminadamente estrangeiradas. A troca de uma boa parte da população do país por gente de outros lugares não vem em boa altura.

 

Isto sem paranóias nacionalistas: sou a favor de que a imigração continue tão livre como até agora, e que as pessoas escolham as suas influências culturais também em liberdade. Venham daí os de fora, enriquecer-nos culturalmente como até agora. Mas não será demais pedir só isto: gostava que mais dos portugueses de amanhã fossem educados em lares portugueses de hoje...

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 16:25 | comentar | partilhar