Já esquecemos que ia ser difícil?

 

 

Um ano volvido, à beira de um Verão quente, há balanços que já podem ser feitos. Mas para isso vale a pena lembrar de onde partimos e onde chegámos. De uma situação de emergência, a um passo da bancarrota, é justo reconhecer que este governo está a conseguir inverter a trajectória dos últimos anos, reduzindo a despesa pública e o peso do Estado na economia. Por pressão externa, é verdade, mas com o mérito cumprir fielmente uma agenda de reformas estruturais que tem permitido que Portugal comece a ser visto com outros olhos lá fora. A descida das taxas de juro aí está para o comprovar, tal como as exportações, que permitiram a primeira balança comercial positiva desde a II Guerra Mundial.

 

Podia isto ser feito sem dor? Alguns dizem que sim, esquecendo o que nos trouxe até aqui. A memória é curta e as opiniões mudam depressa. Ainda há poucos meses a ladainha era: "vivemos acima das possibilidades" e "é preciso mudar de vida"; agora, as mesmas vozes dizem que se "está a ir longe demais". Os ventos parecem mudar à medida que somos nós ou o nosso grupo a sofrer. Mas o mais curioso é que são aqueles que nos trouxeram até aqui os primeiros a vacilar. O PS vive um dilema permanente entre a fidelidade a um programa com a sua assinatura e as críticas oportunistas à austeridade. Uma posição demagógica porque os socialistas sabem que teriam de aplicar a mesma receita se fossem governo. Sabem que o problema não está resolvido, longe disso, e não podemos alargar o cinto ou começar a distribuir dinheiro, como se fez no passado, com os resultados conhecidos.

 

Por mais que nos custe a crise não acabou. Apesar das reformas feitas, continuamos com um problema da competitividade, com reflexos graves nos desemprego, uma justiça lenta, um Estado gordo e anafado. Mas é justo reconhecer que o Governo tem lutado por mudar as coisas no sentido da sustentabilidade. Sinal disso são as reacções generalizadas, desde médicos, militares, professores, acabando nos pilotos da TAP. O que mostra coragem em enfrentar alguns interesses e vacas sagradas. Ou alguém acredita que o ministro da saúde tem uma especial embirração pelos médicos? Ou que se levanta de manhã a pensar qual o serviço de urgência vai encerrar nesse dia? Estas reacções são legítimas, mas é preciso ver se o interesse colectivo deve prevalecer sobre os interesses particulares, por mais poderosos que sejam ou com mais acesso à comunicação social. Ou será que os maquinistas da CP têm um direito acrescido a horas extraordinárias só porque conseguem parar os comboios durante meses?

Se não mudarmos o nosso futuro será tão curto como a nossa memória.

 

[Diário Económico]

publicado por Paulo Marcelo às 14:03 | partilhar