As guerras do Levante (II)

 

A Europa necessita rapidamente de gás para satisfazer a sua sede de energia, e a sua produção própria está em declínio. São necessários aproximadamente 30 Bcm/ano de capacidade de reserva para não fazer aumentar, ainda mais, a dependência da Rússia. E para estas quantidades, como expliquei no post anterior, não há muitas alternativas – e algumas que havia foram colocadas a hibernar.

Em Dezembro do ano passado falei aqui da ebulição que está a acontecer no Mediterrâneo Oriental onde de repente se preparam para despontarem dois petro-estados: Chipre e Israel. O problema é que ambos disputam com países vizinhos os limites territoriais das suas reservas energéticas o primeiro com a Turquia e o segundo com o Líbano e a Síria.

Estes recursos estão situados no mar mediterrânico, na bacia do Levante onde se estimam que existam reservas de aproximadamente 122 Tcm de gás e 1,7 biliões de barris de petróleo para o conjunto dos quatro países (fonte da empresa americana que ganhou as concessões para a exploração). E aqui, Israel já se antecipou e promete em cinco anos uma capacidade de exportação na ordem dos 20 Bcm/ano na forma de gás natural liquefeito (LNG). Os grandes projectos em curso são Tamar (o mais adiantado) e o Leviathan, onde estão projectadas grandes plantas de extracção e liquefacção de gás para depois o exportar na forma de LNG. Esta opção é aparentemente a mais racional oferecendo a Israel a hipótese de exportar para a Europa ou para a Ásia, onde o gás poderá valer mais. Hoje ninguém parece acreditar na possibilidade de exportação directa deste gás para a Europa por gasoduto terrestre, onde o gás israelita podia competir directamente com o gás russo. E porquê? Porque neste caso teria que atravessar a Síria.

Como todos concordam, um resultado favorável para Israel, da guerra civil na Síria, é a queda do regime e a sua substituição por um menos incompatível – este é um factor decisivo (como se diz em português moderno um gamechanger) neste enorme jogo de interesses económicos. Primeiro, porque pode abrir a alternativa a Israel do gasoduto terrestre passando pela Síria e pelo apetecível mercado turco e com entrada no mercado da UE pela Grécia. Segundo, mesmo com a opção pelo gás natural liquefeito a queda do regime sírio poderá tirar o apoio ao Hezbollah no Líbano, o que para além de aumentar a segurança das fronteiras terrestres a norte de Israel, vai também aumentar a segurança no mar Mediterrâneo protegendo as infraestruturas energéticas de potenciais ataques hostis; e, mais importante, favorecer a negociação das fronteiras marítimas em disputa com os governos do pós-guerra do Líbano e da Síria para a distribuição de tão valiosos recursos energéticos. Quanto à hipótese de um gasoduto submarino que ligue também o Chipre e entre na Europa directamente pela Grécia – pessoalmente, acho que não interessa nem à Turquia e menos ainda aos investidores americanos, pelo facto de passarem ao lado deste enorme mercado e importante aliado.

 

Neste caso, por muito que os média fustiguem a opinião pública mundial com as barbaridades da guerra, a Rússia nunca estará disponível para colaborar – não abrirá de boa vontade o corredor do Levante a Israel e às empresas petrolíferas americanas. As guerras têm sempre uma componente económica, e esta não é diferente.

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publicado por Victor Tavares Morais às 00:07 | comentar | partilhar