No canudo vive a esperança

 

Os serralheiros têm melhores ofertas de emprego do que os engenheiros. A constatação apareceu na imprensa e mereceu destaque em todos os meios de comunicação. O país fervilhou com a revelação e rapidamente concordou: nas condições actuais, estudar não compensa. Significa isto que andámos todos iludidos, quanto às vantagens de frequentar a universidade?

 

Não. Estávamos certos. Em 1981, Portugal tinha 155 mil licenciados. Vinte anos depois, em 2001, eram já mais de 650 mil. E em 2011, mais de 1 milhão e 200 mil. Isto explica, em grande medida, porque é hoje mais difícil a um licenciado arranjar emprego. Em 10 anos, duplicou o número de licenciados, mas não duplicou a oferta de emprego. Apesar disso, a frequência do ensino superior permanece uma importante mais--valia.

 

1. Um anúncio de emprego indica o salário inicial. Mas não diz qual será o salário no futuro. A probabilidade de ter aumentos salariais significativos ao longo da carreira é mais elevada para o engenheiro do que para o serralheiro. Isto porque, na maioria das profissões não-qualificadas, existe pouca diferença entre os salários no início e no fim da carreira. No caso das profissões qualificadas, a diferença entre o primeiro e o último salário é muito significativa. Afinal, estudar compensa.

 

2. Hoje há mais desemprego entre os licenciados do que havia? Sim, muito mais. No final de 2009, havia 45 mil licenciados desempregados inscritos no IEFP, e no final de 2011 havia 63 mil – um aumento de mais de 40% em apenas dois anos. Isto mostra bem como a situação está mais difícil para os licenciados do que estava há dois anos. Mas não está pior do que para os outros. Entre o total de desempregados inscritos no final de 2011 (605 mil), apenas 10% são licenciados. Além disso, o tempo de desemprego é muito desigual entre os licenciados e os não-licenciados: quanto menor a formação, maior a duração do desemprego. Afinal, estudar compensa.

 

3. Portugal tem instituições de ensino superior a mais. Há 11,5 instituições por cada milhão de habitantes, sendo este rácio muito inferior em Espanha (2,2), em França (5,1), ou no Reino Unido (2,8). Este excesso de oferta tem como consequência que nem todas as instituições são boas. Dito de outro modo, as licenciaturas não são todas iguais. Os dados da DGES – Direcção-Geral do Ensino Superior mostram que uma em cada três licenciaturas apresenta uma taxa de desemprego superior a 10%. Por isso, um estudante, quando ingressa no ensino superior, deve escolher em função da área de estudo e da instituição. Faz diferença o que se estuda e onde se estuda. Afinal, estudar compensa.

 

A taxa de desempregados licenciados impressiona porque é incompatível com as expectativas do passado. Expectativas que se mantiveram elevadas por culpa de quem não percebeu a evolução dos tempos. E por culpa do poder político, que não informou os estudantes sobre a empregabilidade dos cursos. Agora que a realidade se anunciou, espera-se que cada um cumpra o seu papel. Que os jornalistas desistam dos alarmismos. Que os políticos informem melhor os jovens. E que estes continuem a estudar. Porque no canudo vive a esperança.

 

[publicado no "i"]

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publicado por Alexandre Homem Cristo às 10:00 | partilhar