O fim da Escola

Thomas More: Why not be a teacher? You'd be a fine teacher. Perhaps, a great one.

Richard Rich: And if I was who would know it?

Thomas More: You, your pupils, your friends, God. Not a bad public, that.

 

Robert Bolt, A Man for All Seasons, I Acto.

 

 

 

Escrevi, em Junho, neste post:

 

Aos professores contratados restará mendigar um lugar no mundo maravilhoso das escolas privadas portuguesas. Em muitas delas, para além de serem lesados sem defesa nas condições em que trabalharão, não serão sequer respeitados enquanto professores. Não só há uma espúria hierarquização de facto entre as disciplinas "mais importantes" e as "outras", como as direcções das escolas, reféns das propinas pagas por uma não-élite ignorante e parvenue, mais preocupada com a dimensão vertical das classificações aparentes dos filhos do que com a sua formação e boa educação, violam, sempre que convenha, as autonomias científica e pedagógica dos professores, sem as quais estes deixam de ser o que são. Produz-se, assim, ali, uma alienação do professor. Traduzindo: as classificações são alteradas "administrativamente". Os παιδαγωγόι da Antiguidade eram mais livres...

Também por estas razões, o Ensino Público, em muitos sentidos, tem, no fim de contas, se não quisermos ser preconceituosos, genericamente, mais qualidade do que o privado. É mais reliable.

 

Há pessoas que se zangam por estas coisas serem ditas. Nada posso fazer por elas. Não estou preocupado com "sondagens". Quem quer agradar sempre a Gregos e desagradar sempre a Troianos, não deve escrever num blog. A não ser que o queira transformar num sítio demasiadamente bem frequentado, um sítio monocordicamente previsível. E quem quer ler um blog desses? Ninguém. As claques tribais, na verdade, não lêem - dedicam-se ao exercício onanista de se encontrarem apenas e repetidamente consigo mesmas. Não vale a pena escrever para o aplauso de claques.

Sejamos Gregos, mas, precisamente por o sermos, não devemos ser cegos para as virtudes dos Troianos, nem para os vícios do nosso campo. Admiremos Heitor diante de Aquiles.

 

É recorrente uma espécie de obsessão ideológica que vem com o pendão de uma "autonomia das escolas". Esta expressão é eficaz, porque funciona como se fosse mágica, encantatória: entorpece os cérebros. Toda a gente se curva imediatamente diante da pretensa bondade da expressão, como se ela fosse um adquirido para lá de todo o exame. E como ninguém se atreve a questioná-la (convém evitar o anátema de "velhos do Restelo" - na verdade, uma acusação reveladora da ignorância de quem a pratica), segue-se em frente, olhando, quanto muito, de soslaio para as bermas da marcha obviamente triunfante.

Se se pensar um pouco que seja, certas coisas, como sempre, acabam por se revelar menos evidentes. Por exemplo, é preciso ver o que se entende concretamente por essa nebulosa sedutora e desarmante chamada "autonomia das escolas" e quais vêm a ser as suas consequências. Uma escola será "autónoma" em relação a quê? Ao Ministério da Educação, diz-se. Já todos fazem que sim com as cabeças, claro - um movimento bem mais simples do que o de fazer que não, e este, por sua vez, também bem mais fácil que pensar, que não carece de movimento algum da cabeça e, "anti-socialmente", dá menos nas vistas. Porque há-de considerar-se, desde logo, que é "melhor" para uma escola ser "autónoma" em relação ao Ministério? Talvez fosse prudente notar que a "autonomia" pode muito bem ter que ver com uns aspectos da relação e não com outros e que há, certamente, graus de "autonomia".

Digamo-lo sem mais delongas: aquilo que vulgarmente se apregoa (é o verbo adequado) como "autonomia da escola" corresponderá, na verdade, a uma autêntica "heteronomia da escola". Quer dizer, uma efectiva "autonomia" administrativa ou burocrática das escolas (seleccionar e despedir professores, gestão "livre" de horários, planos curriculares "adequados" às "necessidades educativas" dos alunos, etc. - e mais guloseimas demagógicas) equivale a uma heteronomia do Ensino. Ora, o que temos obrigação de procurar atingir é uma autonomia do Ensino e não uma autonomia meramente administrativa da escola.

 

Com a "autonomia", traduzida, preferencialmente, já se sabe, na capacidade discricionária dos Directores de despedir e contratar docentes, os vícios de tantas das escolas privadas referidos na citação acima alastrariam às escolas públicas.

O nervo do ensino está na exigência do professor (um professor ignorante, incapaz, não tem como ser exigente; por outro lado, não se pode ser exigente a alunos que passam fome: aquela é uma condição que assusta a "esquerda" e esta é uma condição indiferente para a "direita". O que pode exigir um professor ignorante? - que os alunos não façam perguntas difíceis.). Ora, no regime da bem-aventurada "autonomia", o professor e a Escola (o que nela importa, não as paredes, claro) ficam à mercê de interesses exteriores ao Ensino. O professor não está já dotado, então, da liberdade para ser exigente - isto é, não detém já a liberdade que lhe permite ser professor. Temos, não um professor autónomo, mas sim um professor heterónomo. Encarregados de educação inconscientes e outras "forças vivas" da região exercerão pressão sobre os orgãos dirigentes da escola para que os seus educandos não sejam "prejudicados" (o que eles, na sua cegueira, imaginam como "prejuízo") nesta ou naquela disciplina consideradas como "menores" ou "secundárias" e que apenas "atrapalham" o percurso escolar dos alunos. Dependendo, por exemplo, dos cursos superiores em voga, as disciplinas discriminadas poderão ser a Educação Física, ou Português, ou Filosofia, ou História, ou Matemática, etc. Como sucede hoje em tantas escolas privadas, pais há que não estão preocupados com a formação dos seus filhos, nem procuram induzir neles o sentimento do esforço pelo carácter desejavelmente integral do Ensino. Esses, de um modo imediato, têm apenas diante dos olhos a "notinha" e a "média" que permitirá ao educando ingressar no curso x da moda. Essas pessoas, julgando, assim, educar os filhos, apresentam-lhes o estudo como algo meramente instrumental no sentido mais mercenário. Simplificando, esses alunos são habituados pelos seus pais a terem como objectivo primeiro não a aprendizagem, mas a obtenção de "notas altas" - estas serão, assim, alcançadas de um modo inautêntico, exterior. Dessa maneira, escapa-lhes miseravelmente do seu horizonte que, sendo exercitados no esforço e no gosto genuínos pelas aprendizagens, o "sucesso" quantitativo das classificações poderá muito bem advir naturalmente.

Para procurar debelar aquela miopia de encarregados de educação, o professor não lhes pode aparecer numa posição de fraqueza. Por outras palavras, o encarregado de educação tem de ver o professor como um agente educativo com um estatuto de competências científicas e pedagógicas que lhe são próprias. Mais claramente ainda: na relação com o professor, o encarregado de educação tem de ter presente que é aquele e não ele quem detém as competências científicas e pedagógicas. Ora, vendo os professores como figuras vulneráveis, haverá sempre a tentação e a prática consequente de exercer poder sobre eles, condicionando o seu trabalho e a sua saudável exigência. Só num mundo povoado de seres integralmente racionais, a tarefa do professor em exigir esforço dos alunos não seria estorvada por encarregados de educação que crêem, sinceramente, estar a ajudar os seus educandos. Mesmo, como disse acima, em escolas privadas, onde se esperaria termos pais mais "informados" e mais conscientes do que deve ser a formação de um jovem, encontramos gente que vê os docentes como uma espécie de extensão de uma criadagem mítica que está ali, não para instruir e formar, mas para "facilitar a vida" dos alunos. O pior é que estes, crianças e jovens, acabam por interiorizar esta perspectiva e, desgraçadamente, adoptam-na igualmente como sua. Não é difícil adivinhar até que ponto é que tudo isto, todo este ecossistema induzido pela "autonomia", leva a uma efectiva heteronomia docente, a um condicionamento ilegítimo da liberdade para a exigência, com as consequências nefastas que essa perversão trará à qualidade efectiva do Ensino.

Há, é claro, uma fábula, uma típica superstição, que pretende contraditar esta inevitabilidade...

 

[Continua.]

publicado por Carlos Botelho às 10:00 | comentar | partilhar