Fim do euro (45) Fim organizado do euro

A UE, que se foi construindo através de sucessivas integrações, deu um passo maior do que a perna ao avançar para uma integração monetária coxa, cujos defeitos estão agora bem visíveis nesta imparável e incontível crise do euro.

 

Como esta integração correu mal, então a solução, propõem alguns, é avançar com ainda mais integração e fazer a união política. A integração monetária tem dado azo a inúmeros conflitos e querem ainda maior integração? Mas não percebem que a integração política ainda geraria mais conflitos do que a integração monetária?

 

A insensatez e o voluntarismo desta ideia de “Europa” trouxeram-nos à terrível situação presente. Acham que doses reforçadas de insensatez e voluntarismo vão ajudar a resolver algum problema?

 

Aqui chegados, parece que seria mil vezes preferível o bom senso (anglo-saxónico ou outro) e perceber que o euro foi uma experiência que correu mal e que é chegado o momento de lhe colocar um fim.

 

Em vez de cogitar sobre soluções erradas e impossíveis (a união política), ou remendos ou paliativos (intervenção do BCE, união bancária, etc.) com inúmeros obstáculos políticos, mais valia unir esforços para colocar um ponto final neste projecto fracassado.

Dadas as características de instabilidade intrínseca do euro, ele tenderá sempre a acabar. Há duas opções limite para esse fim: i) planear e minimizar os custos (ainda assim elevadíssimos) de uma desintegração ordenada do euro; ii) permitir, por inércia, que o euro acabe de forma caótica, destruído por um tsunami financeiro, que destruirá tudo à sua passagem e não apenas na zona do euro.

 

Há sinais crescentes de que a criação do euro foi um jogo de soma negativa, isto é, que os benefícios que trouxe a uns foram inferiores aos custos que impôs a outros. Mas estes prejuízos são insignificantes quando comparados com aqueles que virão de um fim caótico do euro, que se prepara para ser um jogo de soma ainda mais negativa, em que praticamente não haverá ninguém a colher benefícios.

 

A escolha entre as hipóteses enunciadas traz consigo um problema político diabólico. Os eleitorados não têm, em geral, consciência de que o euro tal como existe não é sustentável e terão muita dificuldade em aceitar que um governo tome a iniciativa de terminar o euro de forma negociada, porque isso será dar um passo consciente para algo pior do que o status quo. O problema é que, se ninguém o fizer, teremos o fim caótico do euro, que é ainda muito pior.

 

Este problema político é mais grave nos países periféricos do que nos países mais fortes. Em todos eles haverá graves prejuízos financeiros mas, enquanto nos países mais fortes o fim do euro não deverá trazer alterações significativas no nível de vida, nos países periféricos haverá perdas brutais de poder de compra.

 

Ou seja, há ainda a esperança de que a iniciativa de um fim negociado do euro possa vir de um dos países fortes, à excepção da Alemanha, porque neste caso ficaria sendo vista para todo o sempre como a responsável pela morte do euro, que “não quis salvar”.

 

Mas poderá vir da Finlândia ou da Holanda. A ministra das Finanças finlandesa já sugeriu que o país saísse do euro, embora depois tenha recuado. É evidente que as declarações iniciais foram muito mais genuínas do que as desculpas esfarrapadas posteriores, sendo útil recordar que nenhum outro país escandinavo pertence à zona do euro.

 

Quanto à Holanda, vai ter eleições antecipadas a 12 de Setembro e o partido que vai à frente nas sondagens defende justamente que o país saia do euro.

 

Em qualquer dos casos, as propostas concretas das condições de saída destes países do euro deverão traçar um mapa para a saída dos restantes. A saída da Grécia, que poderá ocorrer entretanto, teme-se que de forma desordenada e com avultadíssimos prejuízos para todos, poderá constituir um estímulo adicional para que se opte pelo fim organizado do euro.

 

[Publicado no jornal “i”]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 09:35 | comentar | partilhar