Mudaram os tempos, não mudaram os jornais

 

A queda na venda de jornais é inquietante. Os dados disponibilizados pela Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação (APCT) mostram que, entre Janeiro e Abril de 2012, e comparativamente ao mesmo período do ano passado, perderam-se quase 75 mil compradores de imprensa. É muita gente e reflecte, na opinião de alguns, as dificuldades derivadas da crise económica. Mas será só isso? Não. O problema está longe de se restringir à crise, e reside, sobretudo, no próprio sector.

 

A população portuguesa tem hoje os maiores índices de instrução escolar da sua história. Seria, portanto, um contra-senso que, precisamente agora, os portugueses tivessem menor interesse na informação. Não têm. Acontece, aliás, precisamente o contrário: nunca houve tanta gente informada. Como tal, a queda de vendas na imprensa indica que as pessoas cada vez menos se informam através dela. Porquê? Entre as várias razões possíveis, há duas que sobressaem.

 

Em primeiro lugar, a imprensa lida hoje com um novo desafio. O alargamento do acesso à internet, com a diversidade de oferta informativa gratuita que nela existe, levou à queda do número de leitores. O fenómeno é global. Mas mais importante do que isso, alterou as necessidades de quem consome informação. Hoje, uma notícia chega rapidamente ao público através da internet ou da televisão, e ninguém quer pagar para ler o que já ouviu umas horas antes. Os jornais ficaram num impasse. Para servir as novas necessidades dos consumidores e sobreviver, a imprensa tinha de garantir uma mais-valia informativa, que justificasse a compra de jornais. Até hoje, foram poucas e humildes as tentativas nesse sentido. No geral, a imprensa acomodou-se. Continua a faltar-lhe mais investigação e mais profundidade. E continua a não conseguir distanciar-se dos modelos informativos que existem gratuitamente. Permanece, portanto, incapaz de se adaptar às novas exigências.

 

Em segundo lugar, a imprensa mantém uma relação ambígua com os factos, enquanto vive obcecada com a sua (alegada) neutralidade. Isso é particularmente visível no que respeita à informação política, que a imprensa nem sequer filtra – apenas distribui. Basta qualquer sindicato ou partido político anunciar uns números alarmistas que a imprensa, em vez de os verificar e confrontar com a realidade, atira-os para a primeira página. Quando assim é – e é-o muitas vezes – a imprensa não informa, limita-se a relatar. Assim, prefere a polémica, mesmo que desinforme. E demite-se do seu dever de informar e fiscalizar o poder político, para simplesmente servir de megafone.

 

No momento actual, em que o leitor se tornou mais exigente, a imprensa não exige mais de si. O resultado está à vista. Perante os números do desastre, é habitual perguntar-se às pessoas porque deixaram de comprar jornais. A pergunta é enganadora, porque impõe o ónus da responsabilidade sobre os consumidores. Ora, sem os pretender ilibar inteiramente, há uma outra pergunta a colocar: o que fazem os jornais para que valha a pena comprá-los?

 

[publicado 2ª feira, no i]

 

Sobre o mesmo assunto, ler também a Carla Hilário Quevedo no i deste fim-de-semana.


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publicado por Alexandre Homem Cristo às 12:55 | partilhar