O poeta lógico



«O poeta apenas deseja a exaltação e a expansão, um mundo onde possa expandir-se. O poeta pretende apenas meter a cabeça nos céus. É o lógico que quer meter os céus na cabeça. E é a cabeça do lógico que rebenta.»


(G.K. Chesterton, Ortodoxia)

 

 

 

Sou genericamente defensor das ideias de Nuno Crato para a Educação. Sobre o ensino artístico acho que Crato não tem ideias pelo que não corro o risco de incoerência se fizer o meu próprio caminho. Gostaria – como professor e pai - que o Ministro da Educação acreditasse na criatividade, no pensamento divergente, na auto-expressão, e que os entendesse possíveis a partir de determinadas estruturas do conhecimento ensinadas na escola. Mas temo que para Nuno Crato isso não seja razoável. Não que ele não acredite no conhecimento. Não acredita é que a escola possa ter um papel relevante na consciência artística dos alunos e que esse papel seja importante na educação em geral. Eu acho que ele não imagina que as artes possam ser também cognição e inteligência e assim não consegue juntar a ideia do «artista-poeta» com os princípios do conhecimento formal, técnico e instrutivo que sempre defendeu. Sabemos da sua falta de jeito para estas matérias. Para além de não as achar entre os saberes «fundamentais e estruturantes» da revisão curricular, não lhes reconhece grande utilidade. E vive o drama e a confusão de ter de arranjar programa disciplinar sem perceber para que é que aquilo serve. As metas curriculares para Educação Visual saídas em Agosto na sua versão final são prova disso. O preâmbulo fala de promoção da curiosidade, imaginação, criatividade e o prazer pela investigação. Esta é a razão de ser da disciplina, sugere o documento. Acho muito bem mas não acredito que Nuno Crato ache o mesmo. A referência ao «prazer pela investigação» e à «experiência sistemática» reforça a minha ideia. Acredito que uma crisálida se transforme numa borboleta mas distingo bem as transformações surpreendentes das transcendentes. Crato não tem nada a ver com esse discurso. O que Crato quis fazer foi exactamente o contrário. E foi o que fez. Propôs para Educação Visual um conjunto de saberes técnicos ensinados e aprendidos por exposição formal destruindo – por fusão e confusão com Educação Tecnológica aquilo que é mais distintivo no indivíduo – a criatividade e a inteligência. As engenharias, os tratados, as definições – o drama do conhecimento disperso sem sentido e sem lugar. O Ministério informa que as metas foram estabelecidas com base em estudos científicos. Que autores, que estudos suportam as decisões sobre o ensino artístico em particular? Existindo hoje imenso conhecimento científico produzido nas melhores universidades do mundo no domínio da arte, do ensino artístico e da criatividade aplicada à educação seria interessante saber a orientação do Ministério neste domínio. Como consegue o Ministério aplicar um critério lógico de classificação à criatividade e à curiosidade? Num sistema binário sim-não, bem-mal? Numa escala de valores? Desenhando «espirais com um, dois, três e quatro centros»? Que indicadores são utilizados para certificar a criatividade de cada aluno? Como entende o Ministério o papel do erro e do risco na produção de ideias? Se vai punir o resultado em detrimento do processo como incentivará à experimentação e ao «prazer da investigação»? A investigação que as metas curriculares referem visam a resolução criativa de problemas ou trabalhos de investigação científica e tecnológica totalmente fora do âmbito artístico ? Acho que Nuno Crato está muito longe destas respostas porque não investiu nessa reflexão nem é essa a Disciplina que ele imaginou. De onde terá tirado então aquela introdução? Será apenas um engano? Que pena… era tão promissor… Ao longo da história os enganos proporcionaram descobertas que mudaram o mundo. Talvez seja o caso. Talvez…

publicado por Ricardo Roque Martins às 10:00 | comentar | partilhar