Fausto: o mito continua vivo

 

Como se conclui uma tetralogia cujos primeiros temas reportam a personagens como Hitler (Moloch, 1999), Lenine (Taurus, 2001) e Hiroito (O Sol, 2005)? Que personagem haveria Sokurov de escolher? A eleição de Fausto, filme de 2011 galardoado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza, pode surpreender-nos. O realizador russo, de forma semelhante ao que Thomas Mann fez no seu Doutor Fausto, mais do que transpor Goethe para o cinema, procura situar esta mítica personagem num dado momento histórico marcado por uma forte decadência cultural aliada a uma crise económica – não estaremos nós hoje a passar por uma situação semelhante? Ao contrário das outras três personagens, que marcaram indelevelmente a História, Fausto, apesar de talvez ter existido, constitui essencialmente um mito que marca a nossa cultura ocidental. Concluir uma tetralogia que aborda figuras obcecadas pelo poder com a figura de Fausto parece-me bastante acertado. Fausto personifica o desejo - humano, demasiadamente humano – de conhecimento, de dinheiro, de poder. Trata-se de alguém que é capaz de entregar a sua vida pela avidez de tudo saber e dominar – há quem lhe chame vontade de poder. Sokurov não nos mostra uma redenção a partir do amor, tal como esperaríamos de uma versão clássica e talvez excessivamente moralista. No seu Faust, limita-se a mostrar com crueza a incapacidade de este modo de existência saciar a vida humana. Um filme belo e extremamente pictórico cujos retratos do mundo se aproximam, de certa forma, das obras de célebres artistas como Bosch e Bruegel. É, nesse sentido, um filme que não se limita a oferecer-nos matéria de reflexão, mas que também é capaz de estimular os nossos sentidos, proporcionando-nos, desse modo, uma experiência estética.

 

http://www.google.pt/imgres?q=Faust+Sokurov+pintura&hl=en&rlz=1G1TEUA_PT-PTPT488&biw=1366&bih=586&tbm=isch&tbnid=Ibb-b14QEh-S1M:&imgrefurl=http://www.caloni.com.br/cine/tag/russia/&docid=dtf0rw7tLxWigM&itg=1&imgurl=http://www.caloni.com.br/cine/wp-content/uploads/Fausto.jpg&w=615&h=461&ei=3EcyUMr5FfDc4QS8zIGgBw&zoom=1&iact=hc&vpx=94&vpy=270&dur=3195&hovh=194&hovw=259&tx=130&ty=124&sig=114045674332728921910&page=1&tbnh=128&tbnw=171&start=0&ndsp=21&ved=1t:429,r:7,s:0,i:91

 

Andreas Lind

publicado por Pedro Picoito às 16:35 | comentar | partilhar