God save the Queen and the Pussy Riot

 

Do anonimato para fenómeno global. Foi assim que as Pussy Riot surgiram. Movimento punk composto por filhas de dissidentes russos, três das Pussy Riot foram detidas em Fevereiro, após uma acção anti-Putin, na Catedral de Cristo Salvador, na Rússia. Acusadas de “vandalismo motivado por ódio religioso”, foram julgadas num processo que todos constataram ser uma farsa. Sem surpresa, foram dadas como culpadas e condenadas a dois anos de prisão.

 

Tudo se passou na Rússia, mas os ecos fizeram-se ouvir por todo o mundo. Em várias cidades europeias foram organizadas manifestações de solidariedade. E à porta do tribunal que as julgou, Kasparov deu a cara e legitimou os protestos. À margem do julgamento, o veredicto político era consensual. A relação entre o regime e a Igreja ficou exposta, assim como o controlo cultural e social que Putin mantém sobre a sociedade russa.

 

Se quanto às interpretações políticas não restam dúvidas, o mesmo não acontece do ponto de vista artístico. O mediatismo que envolveu o julgamento das Pussy Riot projectou-as também enquanto fenómeno musical. E a indústria musical respondeu. Primeiro, com palavras de apoio de artistas como Madonna, Sting e Pet Shop Boys. Depois, com a elevação das Pussy Riot a salvadoras do punk, que perdera o fôlego de outros tempos.

 

É conhecida a relação da música rock com a política. Os exemplos abundam, como “Sunday Bloody Sunday” (U2) e “Another Brick in the Wall” (Pink Floyd), canções essenciais para a história do rock e para a preservação da memória política. Mas foi sobretudo nos subgéneros do punk e do metal que a mensagem se radicalizou e os protestos passaram a gritos contra o sistema. Assim foi com os Sex Pistols, clamando por “Anarchy in the UK”, ou com os Sepultura, que se diziam “Crucificados pelo Sistema” e que fizeram de “Refuse/Resist” o seu mote.

 

Assim, a pergunta colocou-se: mesmo não conseguindo salvar a Rússia de Putin, podem as Pussy Riot salvar a música punk? Em princípio não, mas ainda bem.

 

Desde logo, as Pussy Riot definem-se como um movimento político, e não como uma banda musical. Não são apenas três, são já uma dezena, e dividem--se em acções e em protestos, não em concertos. A atitude punk está lá, no sentido em que há rebeldia e um desafio ao sistema, mas isso só por si não as distingue de qualquer movimento de contestação social. Falta a música. E com as Pussy Riot, a música é apenas o pano de fundo, desempenha um papel plenamente secundário.

 

Mais importante, tradicionalmente, a música punk vive em constante ironia: é contra um sistema que permite a sua existência e lhe concede amplas liberdades. Não é por acaso que o punk é definido como um género de música ocidental. É que esta ironia, que em alguns casos é até uma espécie de hipocrisia, só pode existir num Estado de Direito. Por isso, a música punk sempre teve mais de manifesto de intenções vãs do que de projecto de mudança – nunca quis que essa mudança chegasse. É isto que distingue as Pussy Riot da tradicional música punk. Não vivem num Estado de Direito e o seu contexto nada tem de irónico. Querem efectivamente a mudança. Não podem, por isso, salvar o punk. E ainda bem, porque podem então ajudar a salvar o seu país.

 

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publicado por Alexandre Homem Cristo às 10:08 | partilhar