De Eça para Camilo

"Ex.mo Sr.

 

Um tardio correio trouxe-me ontem um número, já quase velho, das Novidades, com um artigo, Notas à Procissão dos Moribundos, em que V. Ex.a., resmungando e rabujando, se queixa ao público de que eu e os meus amigos implicamos consigo, sempre que isso vem a talho de fouce, e lhe assacamos aleivosias. Como exemplo deste indecoroso hábito, cita V. Ex.a. um período da minha carta a Bernardo Pindela nos Azulejos, em que eu alegremente me rio dos discípulos do romanticismo que, depois de clamarem contra certos escritores, como realistas e chafurdadores do lodo, apenas imaginam que o público só esse lodo apetece, para seu consumo intelectual, se apressam a escrever na capa de seus livros: romance realista, para que o público, aliciado pelo rótulo, os compre também a eles, e os leia também a eles... E V. Ex.a., meu caro confrade, acrescenta logo com a mais consciente certeza: “Ora isto é comigo!”

 Suponha que um dia, numa novela, V. Ex.a. descreve, com o seu vernáculo e torneado relevo, certo animal de longas orelhas felpudas, de rabo tosco, de anca surrada pela albarda, que orneia e que abunda em Cacilhas... E suponha ainda que, ao ler essa colorida página, eu exclamo, apalpando-me ansiosamente por todo o corpo: “Grandes orelhas, rabo tosco, anca pelada... É comigo!” Que diria V. Ex.a., meu prezado confrade?

 (...)"

 

In Eça de Queirós, Últimas Páginas.

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publicado por Carlos Botelho às 15:00 | comentar | partilhar