Ecce Homo



Mona Lisa de Leonardo da Vinci (1503) versus Mona Lisa de Marcel Duchamp (1919)


Mona Lisa de Leonardo da Vinci (1503) e Mona Lisa de Marcel Duchamp (1919)



«Um artista é alguém que produz coisas que as pessoas não necessitam de ter. Todavia, ele pensa que será uma boa ideia dar-lhes.»

(Andy Warhol)

 

 

No século XX ocorreram transformações curiosas no modo de perceber o artista, a obra de arte e a consagração de ambos perante a opinião pública. Habituámo-nos a ver nos livros de História de Arte coisas tão incompreensíveis para os academistas como os «Ready Mades» de Duchamp, o expressionismo abstracto de Pollock, o abstracionismo geométrico de Malevich ou as caixas de cera da Brio de Wahrol. Chamaram-lhe «vanguardas artísticas». O que diria a este respeito o professor que chumbou o desenho a carvão de Marcel  Duchamp na Academia e que o impediu de seguir os estudos artísticos? Não sei. Desse professor já nem Duchamp se lembrava bem numa entrevista que deu a Pierre Cabanne há poucos anos. Nem nós, nem ninguém. Marcel Duchamp, esse que questionava a intencionalidade do artista e o apego às coisas criadas, que não conseguira entrar na Academia por culpa de um desenho a carvão emergiu e fez-se fenómeno no mundo das artes.  Se não fosse Marcel Duchamp seria outro, talvez. O mundo achava-se preparado para perceber a arte de um modo diferente e pronto. No Armoury Show com Duchamp ou no Cabaret Voltaire com os Dadaístas, nos Estados Unidos, na Suíça ou noutro sítio qualquer. E muitos teóricos se lançaram na explicação do fenómeno. O fenómeno é muito fácil de enunciar e mais difícil de compreender: o meio de exposição de uma obra associado a uma comunidade apreciadora – aquilo a que chamamos «o mundo da arte» - têm a capacidade de alterar o  significado de um objecto quotidiano transformando-o em obra de arte. Ou de um  modo mais simples, o que consagra uma obra de arte é o seu meio expositivo e não o seu valor objectivo ou o mérito técnico do artista. No caso de Duchamp ocorreu um conjugação de factores institucionais deste tipo que o levaram à fama. A partir dele uma garrafeira na cozinha é uma garrafeira mas uma garrafeira no museu é um «ready made», ou seja, uma obra de arte. Uma caixa de cera Brio no armazém é uma caixa de cera mas a mesmíssima caixa no museu Berardo com um título e um autor - Andy Wahrol - vale milhões. Num século a obra de arte saltou das molduras e dos plintos e apresentou-se nos lugares mais improváveis, com novas formas e com outros nomes até que chegou à terra da Dona Cecília.  O que é então a obra da Dona Cecília em parceria desastrada com Elías García Martínez, o autor original de Ecce Homo de Borja? Se o espaço museal e artístico se expandiu para fora dos museus e das galerias no princípio do século XX o que diremos se a internet e o facebook consagrarem a Dona Cecília e a introduzirem inesperadamente no mundo da arte? Marcel Duchamp também não sabia que era famoso nos Estados Unidos e que os seus quadros tinham feito enorme sucesso no Armoury Show. Foi Walter Patch, um negociante de arte americano que o surpreendeu com a notícia convidando-o a deslocar-se lá para presenciar com os seu próprios olhos.  O que tem afinal a menos o Ecce Homo de Borja quando comparado com um urinol, uma garrafeira ou um ferro de engomar?  A Dona Cecília Giménez perceberá quando ultrapassar a sua fase depressiva – aliás muito própria dos génios - que é afinal uma «artista de vanguarda». Não é por acaso que ela é contemporânea de Duchamp. Por que razão «o mundo da arte» demorou 81 anos a perceber isso? Isso dava outro post…

publicado por Ricardo Roque Martins às 10:00 | partilhar