Uma citação para os nossos tempos

 
Parece uma verdade de senso comum que a escola está condicionada pelas necessidades e recursos actuais de cada país.

Tal crença implica, por um lado, que se imagina um futuro exactamente igual ao presente e, por outro, que não se considera como riqueza o capital humano do país. A verdade, todavia, é que uma colectividade nacional (a não ser que a suponhamos em vias de extinção) é um ser em crescimento económico; e que a parte mais substancial do seu capital são os seus homens. O mais produtivo investimento dos recursos nacionais é o que se investe na formação dos homens.

Uma nação de analfabetos (ou de semianalfabetos) é uma nação pobre; e não é por ser pobre que é de analfabetos, antes por ser de analfabetos que é pobre. (...)

Por isso, condicionar o fomento da escola às necessidades e recursos existentes em dado momento é (quaisquer que sejam as razões e intenções de tal critério) condenar a colectividade nacional à pobreza crescente. O princípio justo é, pelo contrário, começar pela escola, como primeiro e mais eficaz meio de vencer o círculo vicioso da pobreza. A escola deve ser planeada não em função do que a nação é, mas em função do que ela há-de ser; deve ser concebida na perspectiva e na escala do futuro. Neste sentido, a solução do problema educativo é anterior e independente da solução dos problemas económicos e orçamentais do momento.

 

António José Saraiva, Dicionário Crítico de Algumas Ideias e Palavras Correntes [1960]

 

publicado por Carlos Botelho às 17:00 | partilhar