Notícias do país que "tem professores a mais"

"Quase um milhão de portugueses não tem qualquer nível de escolaridade. (...) Cerca de 49,1% da população com mais de 15 anos não possui o 9º ano de escolaridade e 25,5% tem apenas o 1º ciclo do ensino básico."

 

Podem continuar sentindo orgulho na Pátria, lendo por aqui.

 

(Perante isto, é impossível não sentir algum alívio: imagine-se como estaríamos, se não houvesse "professores a mais"!... Não sei como será na Áustria, esse exemplo eleito por Nuno Crato [ver video, a partir do min 3], mas caberá perguntar: é admissível comparar-se, como ele faz, de qualquer maneira, o número de professores dos dois países (ou a sempre popular ratio professores/alunos), sem ter em conta multiplicidades curriculares, diferenças históricas e culturais, o estado actual de escolaridade das populações, etc?... A não ser que se varra tudo isso - e caberá, então, perguntar ainda: é sério esse modo de dispor as coisas?... A resposta parece-me evidente.

Entretanto, já sabemos que virá por aí a litania - curiosamente, contraditória com o resto da "argumentação" - segundo a qual não importará a quantidade de docentes, mas sim a sua "racionalização", o que permite sempre aceitar acriticamente qualquer número, independentemente do seu reflexo na qualidade do serviço.)

 

A expressão "professores a mais" é filha de uma perspectiva que, curiosamente, apenas aceita derivações num só sentido. Isto é, para os adoptantes dessa perspectiva, é admissível somente o "a mais", mas nunca o "a menos". Portanto, à primeira vista, se se aparecesse, sem mais, a defender haver "professores a menos", cair-se-ia na mesma miopia infantil. Aparentemente, essa seria uma acusação justa. Mas acontece que, na verdade, tratando-se deste assunto (por mais que assim seja para algumas cabeças simples, os assuntos não são todos equivalentes...), o significado de "professores a menos" não é apenas e simplesmente o reverso de "professores a mais". Por assim dizer, o uso desta última expressão acaba, afinal, por ter uma diferença "qualitativa" e não meramente "quantitativa" relativamente à outra. Isto é, nesse sentido, e cedendo até certo ponto à ridicularia impertinente destas expressões, diga-se que nunca há professores "a mais" e que, pelo contrário, há sempre professores "a menos".

 

Só não seria assim, se o ensino-e-aprendizagem fosse um processo de "engorda" (como se tende, naturalmente, a considerá-lo). Mas não. O "resultado" do ensino não é qualquer coisa como um acrescento finito (a "engorda"), mas antes uma alteração do olhar. Talvez simplificando, é o que acontece quando uma criança deixa de ver, diante de si, traços ininteligíveis e passa a ver, ali, letras (isto é, o seu olhar, não se qualifica, mas, antes, altera-se para um ler); quando se estuda a partir da tabela periódica; quando se reconhecem figuras de estilo; quando se determinam propriedades do espaço antes insuspeitas; quando se descobre a cadência da anáfora; etc. Só se as coisas não se passassem assim, haveria lugar para uma recorrente possibilidade de um "a mais" de professores - acontece que é essa própria possibilidade que não faz, de todo, sentido.

 Pode passar-se na situação presente aquilo que vulgarmente se descreverá como "desperdício". Um professor, enquanto tal, mesmo que enquadrado no serviço público (ou, talvez, precisamente por isso), constitui-se sempre como a (instituída) condição da possibilidade da completação infinita da natural incompletude dos humanos. E essa tarefa é infinda.

Nesse sentido, a simples consideração do "haver professores a mais" (para não falar das decisões políticas mesmas) constitui qualquer coisa como um absurdo antropológico.

publicado por Carlos Botelho às 00:40 | partilhar