O olhar

Was ihr nicht tastet, steht euch meilenfern, 

Was ihr nicht faßt, das fehlt euch ganz und gar,

Was ihr nicht rechnet, glaubt ihr, sei nicht wahr,

 Was ihr nicht wägt, hat für euch kein Gewicht,

 Was ihr nicht münzt, das, meint ihr, gelte nicht! (*)

 

Goethe, Faust II, 4918- 4922.

 

Passos Coelho chamou piegas ao povo que o elegeu e que passa dificuldades,  António Borges, com alheamento e sem pestanejar, ou Camilo Lourenço, entre tantos outros, propõem ou acenam com despedimentos em massa, como quem propõe uma ida ao café. Para eles, trata-se, certamente, da "frieza" da "ciência". Da "objectividade", talvez.  Da "necessidade". Whatever. Como sabemos, tudo é argumentável e há sempre boas "razões" para fazermos isto ou aquilo. Mesmo Cavaco Silva, à frente de toda a gente, teve aquela tirada infelicíssima a respeito da exiguidade da sua pensão. 

Estas pessoas não são, por assim dizer, activamente "más". Não têm "pêlos no coração". Não se trata aqui de crueldade. Passa-se com elas o padecerem de um confinamento do olhar. Provavelmente, um confinamento "oligárquico" da sua perspectiva. Com o estreitamento do seu campo visual, há objectos que, pura e simplesmente, não aparecem no horizonte abarcado pela sua compreensão. Aquelas personagens não podem falar de ou "sentir" aquilo que não vêem. Isso não está lá. Não existe. Na melhor das hipóteses, há, para eles, uma assunção meramente formal, teórica, da sua existência. Seja como for, essas realidades não são por eles autenticamente experimentadas como o são outras que lhes estão afectiva e efectivamente mais próximas, que cabem no seu horizonte. Por isso, tantas vezes, quando referem aquelas realidades, fazem-no no modo de uma inautenticidade meramente retórica.

Por outro lado, para quem se move com à-vontade no meio de uma auto-suficiência "ideológica", com todos os actos justificados e fundamentados por quaisquer "teorias" subsidiárias da "ideologia" (e não o contrário...), o sofrimento individual dos objectos das suas opções encontra-se sempre esbatido, quando não completamente elidido. Assim, os "revolucionários" não tinham em conta o efectivo sofrimento de alguns que (muitas vezes, com a infelicidade de se encontrarem na época errada no regime errado), de um dia para o outro, viam os seus objectos pessoais remexidos e ridicularizados por mãos a quem nunca tinha sido dado o aprender a compreendê-los. Esse sofrimento individual era (e é) considerado como um efeito co-lateral despiciendo decorrente da culpa que lhes era intrínseca: porque são "os ricos", ou "os donos da terra", etc. Por outro lado, também os nossos "liberais" vêem como um efeito desprezível dos inevitáveis "ajustamentos" toda a degradação humana e o sofrimento que os vai acompanhando. O mecanismo justificativo é sempre semelhante: são culpados (de serem funcionários públicos, ou de "viverem acima das suas possibilidades" e terem de ser reconduzidos aos seu "lugar natural", etc.) e, como tais, têm o que merecem. E são, também como os outros o eram, apontados como "privilegiados". O corolário destas perseguições é uma troça abjecta: uns dizem "coitadinhos dos patrões...", outros dizem "coitadinhos dos funcionários...". Mas, mesmo aqui, geralmente, não há, por assim dizer, uma maldade activa.

Onde pode haver um problema moral é na preguiça em recusar tentar diminuir o confinamento do olhar, em recusar o alargamento do seu campo visual, para que possam incluir-se nele uma série de realidades que permanecem insuspeitas.

 

[(*) Traduzindo livremente, será algo como: O que não tocais, está-vos a milhas [ou a léguas], / O que não agarrais [ou não apreendeis], de todo vos falta, / O que não contais, acreditais não ser verdadeiro, / O que não pesais, não tem para vós peso algum/ O que não cunhais, credes vós, não tem validade.]

 

publicado por Carlos Botelho às 22:42 | partilhar