Sem pergaminhos

Quando, no nosso século XIX, se extinguiram as Ordens Religiosas (os Liberais, curiosamente, iam, assim, demolindo o poder que, historicamente, contrabalançava o do Estado) e ficando, depois, conventos e mosteiros literalmente a saque, os simples dos campos descobriram que muitos códices constituiam um excelente combustível para foguetes e fogueiras de festas populares. É natural. Tratava-se de pessoas que não sabiam ler nem escrever - tinham, realmente, diante de si um excelente combustível e nada mais do que isso. Um códice era comparável com a carqueja, com toros, etc. Se alguém lhes aparecesse à frente, tentando demovê-los de um acto para nós horripilante, poderiam muito bem perguntar-nos: mas isto arde ou não arde?... Nós, alfabetizadamente embaraçados, por mais que tentássemos mostrar que essa é apenas uma forma entre outras possíveis de ver a coisa e que essa perspectiva perde de vista a natureza específica de um documento daqueles, seriamos sempre, de novo, confrontados com a pergunta: Deixe-se de balelas aristocráticas! Isto arde ou não arde bem?...

Aquele embaraço alfabetizado é a posição em que ficam os que tentam fazer ver que uma Escola não é uma mera empresa prestadora de serviços ou de bens transaccionáveis que possa ser gerida como por um qualquer gestor, em que os professores seriam contratados como um qualquer outro "trabalhador", em que os alunos serão os "clientes" e os pais também (como defendia no Público, de 24 de Março, o negociante de cervejas Pires de Lima - mas mesmo ele teve o cuidado de usar aspas), etc. (É irrelevante virem dizer que não vêem a Escola desse modo, porque o que importa não é o modo como a consideram formalmente  ou facialmente, mas sim o objecto que é efectivamente constituído por eles, com o seu discurso, opções políticas, etc.) Um professor é um servidor, serve, presta um serviço. Resta saber se todos os "serviços" se equivalem, podendo ser considerados sempre como um objecto formalmente indiferenciado. Por exemplo, o "serviço" de um canalizador tem o mesmo sentido que o "serviço" do professor? (Para mim, quem assim pensa, deve ser lamentado. E ensinado.)

É inevitável que uma perspectiva altere o objecto. E, se a perspectiva de fundo é uma, ela constitui-se, então, numa cegueira relativamente a compreensões subsidiárias de uma perspectiva de fundo alternativa - porque é esta que lhes confere sentido. Os diversos pontos-de-vista possibilitam todas as analogias: uma escola com uma charcutaria, ou uma charcutaria com uma escola, por exemplo. Acontece que nem todas as analogias são admissíveis. O movimento analógico deve parar no limite da caricatura. Assim, são, pelo menos no início, inconciliáveis, as posições que teimam em aplicar à realidade (que é complexa) uma rasoira que, de modo convenientemente simplista, tudo nivela, e as posições que vêem nisso uma perversão intolerável. Há ainda que ter em conta o argumento retórico demagógico de imediato arremessado a qualquer posição de prudência: quem se atrever a apontar alguma especificidade do acontecimento do ensino, é imediatamente acusado de sustentar uma posição "aristocrática" (curioso defeito) ou "elitista" (também é bom este), ou de procurar manter "castas", etc. Como é natural, este tipo de argumentação falaciosa é eficaz - não requer grande sofisticação, apela a pulsões de inveja social, apostando, portanto, na falta de informação das pessoas e no facto de não estarem munidas das ferramentas teóricas adequadas à desmontagem de todo aquele simplismo. (E, como sabemos, não há aqui nada de novo.)

publicado por Carlos Botelho às 11:33 | partilhar