O analfabetismo das coisas

Montag [Oskar Werner] e o seu risonho comandante [Cyril Cusack] cumprem a sua missão, politicamente justificada, queimando livros, no Fahrenheit 451, de Truffaut.
 

 I

Há qualquer coisa de traiçoeiro, qualquer coisa de incomensuravelmente bárbaro, no facto de milhares de pessoas, entre as quais se contam tantas que, alguma vez, inevitavelmente alguma vez, se quedaram abismadas à boca das coisas, acontecendo-lhes isso sob vários modos: umas que compreenderam o alfabeto da tabela periódica, outras que depararam - e nunca o esqueceram - com um dístico da Antologia Palatina, ou outras ainda que, um dia, ouviram os pássaros de Septimus Smith, ou se maravilharam com a bomba sódio-potássio, se reconheceram no bicho de Kafka, outras que se doeram em Álvaro de Campos, ou se sentiram interpeladas por Sócrates, que confrontaram a sua alienação na alienação das personagens de Balzac, sentiram a proximidade do emudecimento com a Carta de Lord Chandos, ou que admiraram a fealdade da Mãe de Dürer, outras que avistaram as possibilidades da barra de Sheffer, ou que assistiram ao verdadeiro artesanato das palavras, do seu encadeamento plástico, das Wendungen, de que falava Hoffmannstahl e, mais, o que é, talvez, mais importante, procuraram, cada vez mais contra tudo e contra todos, arrostando com a sucessão de directivas incompetentes e aviltantes dos governos e com a canzoada lumpen que lhes serve de tropa-de-choque, procuraram, de algum modo, passar, transmitir, aquele olhar a outros, que o assimilassem no seu próprio olhar, não que meramente o acrescentassem, mas que o integrassem autonomamente, produzir neles uma conversão de perspectiva que os restituirá a si mesmos - há, sim, qualquer coisa de traiçoeiro, de incomensuravelmente bárbaro que se vejam forçadas a isto.

 

O processo - o seu resultado visível - começou aqui [referido ali e acolá]. Foi, desde o começo, um processo simultaneamente incompetente e maldoso. Numa palavra: miserável. Também politicamente cobarde, porque pretende justificar como "naturais" consequências que foram conscientemente induzidas. Uma vergonha - não para aqueles que foram os seus objectos, mas para os que perpetraram a coisa. Mas uma vergonha também para os que aplaudem. Não deixa de haver uma tonalidade moral nestas opções. Trata-se de escolhas que implicam sempre uma posição de indiferença em relação ao que ficou exposto acima. Contudo, está-se, aqui, perante uma indiferença meramente aparente, porque não é moralmente neutra. Essa indiferença não é realmente passiva - é, precisamente, uma escolha activa. É uma "diferença". Quem é "indiferente", escolheu essa "indiferença". Não está nunca num qualquer grau zero de posição. Salvaguardando aqueles que assumem as suas perspectivas de um modo que procura ser consciencioso (que os há sempre, claro), mas não esquecendo que, esses, são, por definição, mais discretos, menos ruidosos, há que dizer que os que, sem mais, praticam e aplaudem estas medidas, optam pela "indiferença", por um encolher de ombros relativamente àquela conformação do olhar descrita no primeiro parágrafo. Essa opção, meus amigos, não é inócua. Tem um significado, se quiserem, "cultural", "civilizacional". Não é de todo possível aplaudir as medidas políticas em apreço (com o seu modus faciendi, ou, mais exactamente, com o seu modus agiendi miserável) e, ao mesmo tempo, reclamar-se de certos "valores". Uma vez que os professores estão sendo assim tratados, precisamente enquanto professores (e não perdendo de vista o que significa essa condição), dispostos no espaço político como coisas, pelos poderes políticos, todo o desprezo, quando não pura aversão, que está implicado na perspectiva que cauciona essas medidas, acaba por ser, umbilicalmente, extensível àquilo que os mesmos professores guardam e transmitem. Numa palavra, o desprezo "indiferente" pelos professores como tais - o que não deixa de ser uma posição "cultural" - é, como se viu, inevitavelmente, o desprezo "indiferente" pelos saberes, pelos patrimónios, pela literatura lida, pela "cultura".

É claro, é inevitável, que haja sempre as cabeças estreitas que vejam nisto apenas um argumentário "corporativo". Esses têm de ser lamentados. E está-se indefeso perante isso, porque as projecções de má-fé são irrefutáveis.

 

 II

Durante semanas, foram, deliberadamente, deixadas suspensas dezenas de milhar de pessoas - com famílias, muitos com cinquenta ou mais anos, sem terem como saber onde serviriam no ano lectivo seguinte. Depois de terem ensinado tanta gente durante anos. Um secretário de estado, como que encolhendo os ombros, limitou-se a dizer, na altura, que talvez ficassem a saber do seu destino três semanas depois. Ou, acrescentou generoso, talvez mais tarde. Hoje, muitos, com mais turmas e sobrelotadas, estão deslocados a não poucos quilómetros de casa. Não custa imaginar uma professora de cinquenta e cinco anos, conduzindo todos os dias dezenas de quilómetros engarrafados, para dar aulas, que preparou, a quatro ou cinco turmas de trinta alunos, quando, um ano antes leccionava três ou quatro turmas mais pequenas. Pelo contrário, os docentes mais novos, note-se, estão dotados com menos tempos lectivos ou, pura e simplesmente, não estão sequer colocados. É difícil encontrar algum senso nisto. A não ser, talvez, o de tornar a vida profissional dos docentes mais velhos tão custosa, que, brutalmente, os empurre para aposentações antecipadas. Tudo isto, como sabemos, é antropologicamente possível. A não ser que creiamos piamente serem os governos integralmente constituídos por anjos não caídos.

 Os professores foram tratados como reses. Só que, desta vez, tudo se passa como se o gado estivesse, afinal, do outro lado. Numa espécie de inversão antropológica, são os bois - incapazes de ver palácios - que estão encurralando os homens e não o contrário.

Os que, colando-se patrioticamente ao governo, vão clamando o estribilho simplista (mas eficaz, claro) de "a Escola servir para os alunos e não para os professores" (como se essa oposição tivesse uma existência mais do que retórica...), esses deveriam parar para pensar e interrogar-se que serviço presta aos alunos todo este processo abjecto.

É ainda mais... interessante que tudo isto, a saber, todo este destrato de dezenas de milhar de licenciados experientes, seja praticado por um governo que alberga no seu interior uma personagem civicamente homuncular, que, tendo pastado inúmeras "equivalências" algures, para nossa vergonha, se vai passeando ufano e tem ainda o descaramento esbofeteável de dizer nas nossas barbas que "norteia a vida pela procura do conhecimento permanente".

 

 III

Tem-se vindo a saber, nos últimos dias, que, afinal, como de resto se suspeitava, as coisas não são tão simples como Nuno Crato pretendeu fazer crer na sua entrevista... Se intencionalmente, se por informações prestadas por colaboradores, o ministro simplificou, deturpou, enviesou, previu fantasiosamente, ou se distraiu da verdade mesmo, sabendo muito bem que, do outro lado, como é habitual com a nossa indigência jornalística, não tinha interlocutores que dominassem os temas para, convenientemente, o porem em xeque. Sobre a putativa diminuição do número de alunos (em que Ciclos? em que períodos? como aferir, com seriedade, o efeito do prolongamento da escolaridade obrigatória? em que Áreas?... O público, não estando ciente de todas estas especificidades, toma pelo valor facial todas as generalidades que lhe vão atirando. Esse exercício duvidoso é sempre mais fácil do que a sua desmontagem.): veja-se isto, isto e ainda isto. De resto, havendo, em toda a linha, simplesmente, uma diminuição geral do número de alunos, essa seria uma oportunidade de ouro para se formarem, pelo menos, nos casos aconselháveis, turmas mais pequenas e equipas pedagógicas aplicadas em trabalhar especificamente com os alunos que experimentam mais dificuldades. Refiro-me a práticas autênticas e com condições efectivas, não aos arremedos dos tempos de José Sócrates e que prosseguem acentuados com os actuais responsáveis. Tratar-se-ia de ir procurando debelar os nossos insucessos escolares seriamente e não com truques burocráticos e perversões pseudo-curriculares, como os governos costumam preferir. Sobre a questão da importância da dimensão das turmas: isto e isto. A este respeito, qualquer pessoa que tenha dado aulas nos Ensinos Básico ou Secundário tem a experiência da relevância da dimensão das turmas com que se trabalha. Basta pensar-se, por exemplo, no acompanhamento adequado dos alunos, ou no uso dos instrumentos de avaliação formativa e até sumativa, com cinco turmas de 22 alunos ou com cinco turmas de 30. Chega a ser ridículo ter que se baixar a argumentação a este nível, mas, enfim, a propaganda (e a ingenuidade?) fala alto e forte. Sobre o alegado aumento da quantidade de docentes dos últimos anos, atirado sem mais para o público naturalmente não-informado, pode sempre consultar-se isto.

Não deixa, ainda, de ser notável aquilo que parece ser uma concepção revoltante da Escola por parte dos responsáveis das opções políticas para a Educação: é dado, de facto, ao Ensino Profissional, um sentido punitivo; passa a ter como que um estatuto de colónia penal. Se acham que exagero, leiam o 1. e a alínea b) do 4. do Artigo 21.º da Lei n.º 51/2012 de 5 de Setembro - o famoso Estatuto do Aluno e Ética Escolar: aqui.

Paradoxalmente, tudo isto é acompanhado por algumas alterações curriculares (num certo sentido, axiais) que não deixam de fazer sentido e de ser benéficas para a formação dos alunos...

 

 

Pelos jornais, televisões e blogs tropeça-se constantemente numa horda de "comentadores"que mais não fazem do que reproduzir a propaganda governamental sobre a Escola e repetir o discurso culpabilizante arremessado aos professores. Não deixa de ser antropologicamente interessante que toda essa gente, em geral alfabetizada, se entregue a um curioso movimento de contorção de serpente para morder as mãos que a alimentaram. Amanhã, quando o governo mudar, serão outros os "comentadores" - mas sempre determinados por fototropismo.

 

Entretanto, as organizações sindicais (sempre os espantalhos convenientes para os sucessivos governos), fazem declarações tonitruantes às Segundas, Quartas e Sextas e assinam acordos vitoriosos com os ministros às Terças e Quintas. Os professores estão, também, "ideologicamente" encurralados. Cercados de um lado por uma "direita" que não pensa e, do outro, por uma "esquerda" delirante. Uma situação que não augura nada de bom. No fundo, é simples, horrivelmente simples: o nosso Estado desistiu da Escola.

Esta ofensiva material e simbólica desencadeada contra a Escola como um todo, ou, pelo menos, contra o que ia restando dela, ainda que a vergonha recaia sobre o governo e os seus e não sobre nós, esta ofensiva faria corar as nossas mãos se elas fossem rostos. Mas coram. Os nossos rostos coram, porque vêem o que preferiam não ter visto e as nossas mãos coram, porque não fazem o que deveriam fazer.

publicado por Carlos Botelho às 23:15 | partilhar