Abstenção

Depois de um acto eleitoral, ouve-se sempre a conversa do costume sobre a abstenção, o problema que representa, como demonstra a existência de um desinteresse quase generalizado pela política, como a nossa democracia fica mais pobre e como os partidos se esforçaram para apelar ao voto mas não conseguiram mobilizar os eleitores. Sobre isso:

(1) A taxa de abstenção em Portugal é normal quando comparada com as restantes democracias onde o voto não é obrigatório. Podemos dizer que é pena que não haja mais gente a votar, mas até este argumento é duvidoso se não pressupusermos que o que é realmente pena é que não haja mais gente a interessar-se pela política e que por isso não vote. Se os que votam se interessarem um pouco pela política, já não é mau.

(2) Os partidos não querem que haja mais gente a votar. Ou melhor, é-lhes mais ou menos indiferente. A eleição dos seus deputados não depende do número de pessoas que vota; é apenas determinada a partir das escolhas de quem votou. Ou seja, só interessa a um partido incentivar os eleitores a irem votar se sentir que o eleitorado que lhe é mais favorável não está mobilizado para o fazer, e que isso lhe custará assentos no Parlamento. Pressupor que os partidos, quando apelam ao voto, o fazem por uma qualquer razão de altruísmo democrático é estar mesmo muito enganado. Por isso, aqueles que apelam aos partidos para que promovam políticas de incentivo ao voto estão a pedir-lhes, no fundo, que procurem resolver algo que para eles não é um problema. Esse tipo de debate tem de ser feito fora da lógica dos partidos.

(3) A qualidade da democracia não é determinada pela taxa de abstenção, mas sim pelo funcionamento das suas instituições. Claro que a participação eleitoral é importante e que se existir uma taxa de abstenção de dois terços isso é problemático, mas em condições normais a questão não se aplica. Aqueles que se dizem preocupados com a ‘qualidade da democracia’ que olhem mais, por exemplo, para a interferência dos partidos na Justiça, onde o problema é realmente sério.
publicado por Alexandre Homem Cristo às 19:47 | comentar | partilhar